Narrativas de Fé (Um breve olhar sobre as simulações recorrentes dos dramas humanos)

Este texto foi escrito em 2013.

Estava assistindo a um programa de debates onde participavam alguns filósofos, historiadores e teóricos religiosos.

Em certo momento o repórter questionou a veracidade de uma passagem bíblica e recebeu uma resposta, inclusive dos teóricos religiosos: “isto é uma história de fé”. Ou seja, a veracidade é o que você sente e incorpora.

Dei sorte de encontrar e juntar vários fragmentos, que trouxe para este texto, e espero que ajudem a dar um pequeno panorama do que eu considero como alguns exemplos de estruturação de narrativas.

As religiões são especializadas em criação centenas de histórias que nos ajudam a resolver problemas. E as culturas criam mais outras tantas.

As histórias nas religiões são diferentes. Depende do local geo-histórico onde se desenvolveu inicialmente, como: as religiões das florestas, religiões de campos abertos e religiões de cidade.

Estou denominando “religiões da floresta”, por exemplo, as originárias africanas e indígenas sul-americanas. Os deuses e entidades estão espalhados pela natureza.

Os índios norte-americanos viviam em campos abertos e tinham uma relação com a natureza, diferente das religiões das florestas. Suas histórias têm relação com a reponsabilidade sobre uma terra que já é dos seus descendentes. Os pais não são proprietários das terras, mas sim os seus filhos. São outros rituais, outras histórias e outros deuses.

As religiões da cidade foram desenvolvidas estruturando outros tipos de poder que tendem mais à centralização. As cidades permitiram um tipo de acúmulo de riqueza que levaram o ser humano à construção de novos modelos de poder e unificação de deuses e entidades.

Os medos e o poder se encontram nestes ringues de histórias dramáticas.

A metafísica, a poesia e o romantismo das narrativas de fé

As narrativas de fé não são relatos da realidade histórica do homem. É uma metafísica, que quando aplaca as necessidades do ser humano é útil, sentida e incorporada através dos contos românticos e/ou poéticos.  

As narrativas de fé são responsáveis pela formação do ser humano para exercitar, através de simulações, soluções para seus problemas e dramas, ao longo de sua vida. Por isto inventamos mil histórias românticas, de terror, de aventura etc. Tudo para aprendermos a resolver os nossos medos, sentir várias formas de amar, herdar coragens e demais instrumentos que nos fazem humanos e ajudam a resolver nossos dramas pessoais e coletivos. E drama, tal qual é bem entendido na literatura, é um problema a ser resolvido.

Como tentar resolver os medos infantis? Pode ser, por exemplo, e por preferência, ouvindo histórias de terror. Pré-adolescentes são muitas vezes viciados neste gênero cinematográfico. Eles estão tentando vencer os medos característicos de seu desenvolvimento. As histórias de aventura também são extremamente importantes para nos dar coragem. E não imaginemos que as histórias violentas vão tornar as pessoas violentas. A arte japonesa jorra sangue pelas telas, pinturas e pelas histórias. Eles utilizam as histórias violentas e a agressividade para diluí-las. Para isto criaram subjacentes histórias moralistas que tranquilizam o detentor das técnicas de lutas, colocando-as a favor do que consideram justo e nobre. Esta contenção é exercitada com severidade e surte efeito. 

Humanização é um movimento antropológico que é conceituado diferentemente pelas diversas culturas desenvolvidas pelo ser humano. Formar um ser humano índio no interior da Amazônia é bem diferente de formar um filho na Europa. Os dramas antropológicos são diferentes e as narrativas de fé estão adaptadas a essas diferenças. Ao ouvi-las começamos a nos tornar amazônicos ou europeus.

A comunicação de massa globalizada cria um novo desafio que devemos aproveitar. Entender e experimentar os dramas e as narrativas de fé das diversas culturas poderá diluir uma série de preconceitos e tentar sentir e entender melhor o ser humano, menos diferenciado antropologicamente, e mais universalizado como ser.

Papai Noel, chapeuzinho vermelho, deuses, semideuses, mitos religiosos e outras narrativas fazem parte da nossa estruturação humana como sendo uma experiência a priori (onde aprendemos antes que a experimentemos) para subsidiar nossas experiências a posteriori (as que experimentamos para aprender). 

Temos narrativas de fé advindas das igrejas e outras criadas espontaneamente pelo povo. Que apareçam ótimos roteiristas para conta-las! Dizer que acredita ou não é uma bobagem. Todas as histórias são ficção e realidade ao mesmo tempo. 

Se a narrativa for útil, sinta, entenda os motivos pelo qual foi criada e tire proveito.

O Aparelho Dramático

Para mim, este assunto foi despertado, quando eu ainda era muito jovem (faz tempo), por um diálogo no final de um filme onde um alienígena dizia que gostaria de se tornar um ser humano, pois havia se interessado pela maneira humana de usar os sentimentos. A personagem então responde para o alienígena que é preciso começar lá do início e começa a contar uma história infantil. Não sei por que esta fala me atraiu a atenção, mas me sugeriu que os dramas são uma forma simulada de aprendizado.

Os dramas contados nas diversas culturas são essenciais para que possamos viver situações simuladas através das sensações, sentimentos e conceitos. Desde crianças ouvimos histórias que criam crenças que nos servirão de base para nossa confiança.

Noam Chomsky desenvolveu no seu livro Novos Horizontes um estudo da linguagem e da mente, de existência de um aparelho cognitivo que tem influenciado o meu olhar. Ajuda bastante a compreender a formação de níveis de complexidade. Por isto, estou inclinado, neste momento, a achar que o ser humano também possui um aparelho dramático.

Creio que coexistem, transversalizados, diversos aparelhos especializados e
complexos, como o psíquico, o artístico, o fonador, o administrativo, o místico e vários outros para organizar os significados das coisas ao longo do tempo e nos ajudar a nos relacionarmos.

A base de uma narrativa religiosa em 1.300 A.C.

Mitra foi uma divindade guerreira pertencente às mitologias persas, indianas e greco-romanas. 

Existem referências sobre Mitra há cerca de 1.300 anos antes de Cristo. Mitra representava a verdade e a “luz”, o bem e a libertação da matéria. Segundo a mitologia ele nasceu de uma virgem em 25 de dezembro na Pérsia, atualmente Irã. Veio para salvar a humanidade, foi batizado, teve doze discípulos, praticou curas e milagres. Fez o ritual da ceia utilizando as representações através do pão e do vinho, morreu crucificado e ressuscitou no terceiro dia. O mitraísmo era cultuado mais pelas elites e por isto foi perdendo espaço para o seu sucessor, o cristianismo.

Curiosidade: O número doze foi muito utilizado em várias mitologias: doze tribos de Israel, doze discípulos, doze signos do zodíaco etc. O número doze foi muito importante e muito utilizado para cálculos territoriais, pois facilita a divisão de áreas. Foi muito utilizado na antiguidade para definição de áreas agrícolas. O círculo tem 360 graus que é múltiplo de 12. O ano tem 12 meses. Até hoje utilizamos esta base numérica apenas por costume. Vamos ao mercado ou a feira e compramos dúzias de laranjas, ovos etc.

Mitra teve um filho chamado Zoroastro (Zaratustra) que dedicou sua vida a uma doutrinação religiosa que pregava a bondade para com os pobres e os animais. Não teve o apoio de outros sacerdotes, nem dos príncipes, pois sua doutrina parecia confusa para a época. Isto lhe valeu uma solidão que o forçou a ficar dez anos meditando em cavernas pelo deserto. Tal qual seu pai, efetuou curas e milagres, tornando-se um militante doutrinador.  Zoroastro foi persistente e conseguiu o apoio do rei da Pérsia, Vishtaspa, que tornou o Zoroastrismo a religião oficial. Uma das regras do Zoroastrismo era “Age como gostarias que agissem contigo.”. 

Zoroastro morreu aos setenta e sete anos, martirizado em frente ao seu templo. Profetizou que um novo messias (que significa ungido) apareceria mil anos após a sua morte como um salvador da humanidade. E outro em três mil anos.

A filosofia de Zoroastro ficou um pouco diluída, mas o mito de Mitra foi preservado pelos romanos, o qual mais tarde se uniria a esta mesma filosofia através do imperador Constantino, um dos primeiros a se basear no movimento popular para exercer o seu poder.

Mil anos depois…

Os romanos dominaram o mundo por muitos séculos e construíram seu império importando e exportando seus conhecimentos e técnicas. Durante a ocupação da área que hoje denominamos Oriente Médio, exerceu seu poderio militar e econômico, fazendo alianças locais. Em Jerusalém eles não participaram das eleições parlamentares, deixando para os judeus aliados esta tarefa. Nunca se intrometeram nas religiões locais, desde que não representassem perigo ao império. 

Isto não significa que não houvesse resistência. Segundo alguns historiadores, quase todo mês algum grupo tentava um golpe insurrecional, que obviamente fracassava por falta de poderio militar para enfrentar os romanos.

Naquele período só poderia se proclamar Filho de Deus quem pudesse não ser contestado, quem tivesse poder militar para isto. Um “pobre qualquer” que se auto intitulasse seria obviamente punido. Mas para liderar qualquer rebelião é necessário conseguir adeptos. Ser Filho de Deus sempre foi um grande argumento. Entram em cena, com bastante força, as heranças do Zoroastrismo.  

Jesus era essênio, uma tribo de judeus pobres. Viu no pensamento Zoroastrista a possibilidade de fundamentar sua filosofia, que se integrava muito bem com seu povo, para propor a expulsão dos romanos através de ações pacíficas apoiadas na construção do bem, filosofia herdada dos persas. Jesus, assim como Zoroastro, faz pregações, cura, opera milagres e tem um conhecimento que desafia os sábios de sua época. 

Vale lembrar que não existiam partidos políticos. Os religiosos (e vemos isto atualmente naquela região) é que conseguiam aglutinar o povo, principalmente as classes mais desfavorecidas, que é são a base dos movimentos emancipatórios. 

Alguns essênios tinham como alternativa, à tentativa de tomada de poder por insurreição, o boicote à utilização da moeda romana, utilizada pelo comércio local. A criação de mais de uma moeda cria concorrências entre elas, e a mais utilizada tenderá a desvalorizará as outras. Esta regra perdura até os dias de hoje, fazendo com que os governos regulem os valores das moedas que utilizam. 

A narrativa religiosa sobre o momento onde Jesus se irrita com os “vendilhões do templo” pode ser interpretada como um conflito dele com os comerciantes, por não lhe estarem dando apoio, ao continuarem a utilizar a moeda romana para fazer os seus negócios.  Tendo existido ou não, as histórias cristãs coincidem com os fatos históricos da época.

Neste período as Narrativas de Fé de Mitra foram reavivadas através de Jesus e já fundamentas por Zoroastro. Nada foi melhor que aproveitar suas profecias para encarnar o primeiro messias. 

Ninguém quer perder esta oportunidade… No Irã (antiga Pérsia) o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad fez uma grande propaganda para ser cultuado como se fosse o segundo messias, que surgiria  três mil anos após a profecia de Zoroastro. Saía nas ruas para fazer milagres…

A pluralidade cristã

Mas o movimento cristão, naquela época não era unificado. São João Batista foi inicialmente considerado o Messias. Com sua morte, Jesus, um discípulo destacado, assume a liderança de parte do grupo. Muitos seguidores de São João Batista não reconheceram Jesus como o Messias e formaram outra religião: o Mandeus. Estes se refugiaram na região onde hoje é o Iraque. Recentemente um camponês descobriu casualmente documentos Mandeus em algumas grutas iraquianas.

Outra demonstração da falta de unidade foi a criação do grupo denominado de Gnósticos que eram cristãos que viam um Jesus mais humanizado, alegre, que falava muito e que não escondia seu relacionamento com Maria Madalena, a quem frequentemente beijava na boca, em público. Os Gnósticos consideravam Maria Madalena a sucessora de Jesus. Quem assistir o ler Código Da Vinci verá uma obra de ficção que se baseia nestes fatos. A história sugere que Maria Madalena teria se refugiado na França e seus discípulos, que ainda existiriam, seriam perseguidos pela organização opositora denominada Opus Dei, que não reconheceria Maria Madalena como sucessora de Jesus.  

Com a crucificação de Jesus o movimento foi desmantelado. Em uma época em que mulheres não tinham credibilidade nem para levar recados, a notícia da ressureição não teve grande repercussão, pois Maria Madalena havia sido a única testemunha do evento.

A filosofia do Zoroastrismo perdeu um pouco de força, mas Narrativas de Fé herdadas de Mitra tinham muitos adeptos entre os romanos que celebravam seu nascimento em 25 de dezembro em uma festa muito popular e alegre, com reuniões de famílias e trocas de presentes que se chamava “Festa do Sol invencível”, que precedia o inverno.

Os outros filhos de Deus

(a luta, armada, continua!)

O movimento cristão não obteve o sucesso desejado, mas a luta pela expulsão dos romanos daquela região continuou.

Simão bar Kokhba, por exemplo, foi um líder religioso militar reconhecido como um grande guerreiro, principalmente entre os membros de sua seita que tinha um forte caráter militarista. Eles se recusavam a reconhecer o domínio romano. Só acreditavam em um governo teocrático, ocupado por judeus. Viam na luta armada o único caminho para enfrentar os inimigos.

Simão bar Kokhba, que significa Simão Filho da Estrela, também se intitulava Filho de Deus. Cento e trinta anos após a derrota cristã montou um exército de guerreiros e expulsou os romanos de Israel e Judéia. Tornou-se o imperador de Israel, mas não por muito tempo. Cinco anos após esta conquista, os romanos retomaram seus territórios. A derrota de bar Kokhba deu origem a um verdadeiro massacre de cerca de 500 mil judeus, por parte dos romanos.

Constantino

Foi o imperador romano por volta dos anos 300 D.C. responsável pela construção do Império Romano do Oriente. 

Constantino conseguiu formar uma base popular pelas suas conquistas e mais uma vez pelas articulações religiosas. Com muita habilidade tornou o cristianismo a religião oficial, sem proibir as outras. Com isto montou sua base popular cristã, que era a religião predominante, sem criar as condições de crescimento das demais. 

Articulou um grande congresso denominado Concílio de Niceia que conseguiu aglutinar religiosos de quase todo o mundo. O concílio foi realizado na cidade de Nicea, atualmente denominada de Iznik, na Turquia.

Neste congresso as questões doutrinárias foram discutidas e aprovadas, não por unanimidade, mas assentaram muitas das Narrativas de Fé herdadas pelos romanos e cristãos. Neste concílio foram integrados os conceitos do mitraísmo, zoroastrismo e cristianismo. O credo aprovado neste concílio demonstra bem esta negociação. 

Credo de Niceia:

“Cremos em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial do Pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra, o qual por causa de nós homens e por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fez homem, padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas quantos àqueles que dizem: ‘existiu quando não era’ e ‘antes que nascesse não era’ e ‘foi feito do nada’, ou àqueles que afirmam que o Filho de Deus é uma hipóstase ou substância diferente, ou foi criado, ou é sujeito à alteração e mudança, a estes a Igreja anatematiza.”.

Constantino até hoje é comemorado pela Igreja Católica, sendo homenageado através de suas obras, imagens e esculturas no Vaticano.

A data de 25 de dezembro foi ressignificada. Tornou-se a data de celebração do nascimento de Jesus. 

A consolidação do governo sagrado

O Governo Sagrado se baseia em uma estrutura de poder onde os níveis mais altos são considerados superiores e exercem poder absoluto sobre os seus subordinados. Este sistema sempre foi utilizado internamente pelos exércitos para garantir a subordinação e respostas rápidas nas ações em combate. 

Os exércitos utilizaram este sistema para garantir subordinação militar, e eventualmente administrativa, aos povos, fossem eles conquistados ou não.  Ao longo do tempo outras instituições foram obtendo poder suficiente para estarem no mesmo nível dos exércitos. Na aristocracia o exército já não tinha poder absoluto e com a democracia burguesa colocou-se, em tese, subordinado aos poderes que se tornaram republicanos.

No caso da religião esta estrutura de poder se tornou hierárquica, ou seja, no topo da estrutura estaria Deus. Hierarquia é uma palavra grega que significa governo divino. É uma estrutura onde se definem os poderes e as subordinações diante de Deus.

Acima do Papa, só Deus. Por isto ele é o Santo Padre. Não há ponderações possíveis nesta estrutura. Quem está acima está mais próximo da divindade. 

O mesmo sistema é adotado para os anjos e arcanjos. Eles também estão classificados hierarquicamente.

A criação da hierarquia representou uma mudança significativa na posição do homem diante das divindades. Nas mitologias antigas existiam os deuses, semideuses, demiurgos etc. e o homem. Havia inclusive conflitos entre todos estes personagens ao ponto de homens desafiarem os deuses. Os homens desafiavam deuses, que os castigavam. Os homens perdiam suas lutas contra as divindades, mas não perdiam a sua dignidade. Ou seja, os homens tinham aspirações que os tornavam mais próximos dos deuses. As mitologias gregas e romanas são repletas de histórias que narram estes tipos de conflito. Na Umbanda, no Candomblé e em diversas culturas vivas também. Na mitologia grega alguns semideuses eram o resultado de relacionamentos entre um deus imortal e um mortal ser humano, como por exemplo, Hércules. Uma promiscuidade benéfica para o ser humano, baseada em sentimentos comuns aos deuses e homens. Um deus amar uma mulher mortal é o mesmo sentimento de um homem mortal amar uma mulher mortal. Para os seres humanos se amarem não necessitariam de nenhuma intermediação divina.

Mas a mudança de paradigma dentro da hierarquia, onde o homem se encontra abaixo do padre, um dos níveis mais baixos da hierarquia, levou o homem a uma condição bem mais humilhada e dependente. O amor entre os homens passou a ser intermediado pela divindade. O homem ficou mais distante de Deus e dos outros homens. 

O escritor e psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa comenta o amor cristão na sua entrevista “A invenção do amor”.

”No início do cristianismo, eu posso amar, sim, mas o meu amor está diluído. No momento em que minha tarefa de evangelizador, de mantenedor da comunidade cristã, for prejudicada, paro de amar, porque o amor se tornou pecado, um desvio, uma aberração egoísta.”

Perguntado sobre o impacto que teve a fórmula cristã “amai-vos uns aos outros” na ordem amorosa, Jurandir Freire responde:

“Na literatura cristã dos três primeiros séculos, a Igreja era uma Igreja do martírio. Você canta o amor a todos, mas é mais importante cantar os grandes feitos dos mártires, dos evangelizadores, da luta contra o opressor. Depois, pouco a pouco, a ídeia foi cristalizando, mas não se tem ainda o amor para com o outro como a preocupação central. Isso se vê em autores como são Paulino de Nola, no qual o amor ao próximo é visto como algo muito extenso e que nós, humanos, não podemos alcançar, senão no final de um percurso. No início, o próximo é o próximo mesmo, um amigo.”

Enganam-se os que imaginam que os padres não se casam porque a igreja tem medo de perder suas propriedades. Atualmente as igrejas não têm tantas propriedades assim, pois seu capital está investido no mercado financeiro. Além do que hoje há um grande aparato jurídico que garante a não divisão dos bens conquistados antes do matrimônio.  O motivo é que um relacionamento amoroso direto entre os seres humanos põe em risco a estrutura hierárquica construída com um amor intermediado por estes personagens que compõe esta representação divina. 

O homem passou a temer e pedir a um deus onipresente a recompensa pelo seu bom comportamento.  A estrutura hierárquica também doutrina e fiscaliza. Os bispos, padres e demais personagens têm procuração divina para dizer o que Deus pensa, o que Ele quer e as punições corretivas para os diversos pecados cometidos pelo ser humano. 

E uma das maiores ferramentas ideológicas utilizadas pela estrutura hierárquica é a ideia do “mistério indecifrável” e inquestionável que colaborou para que o homem fosse reprimido na sua ânsia original pelo conhecimento. O oculto ficou proibido de ser investigado. E o pecado original é um uma narrativa de fé bastante poderosa para que o homem abandone a sua busca pelo oculto. O ser humano não tem como fugir dele, pois nasce com ele. O pecado original é um grande instrumento de repressão, onde só resta ao ser humano buscar a sua ingenuidade, descaracterizando seu olhar malicioso pelo conhecimento, através de uma busca inglória de se integrar com o universo, ou o melhor, com o paraíso perdido e não mais acessível.

A hierarquia é o instrumento mais poderoso que os descendentes de Zoroastro desenvolveram para consolidar o seu poderio. O governo hierárquico e suas narrativas de fé não aplacam as necessidades do ser humano. Após séculos, e às vezes milênios, de utilização de Narrativas de Fé úteis, várias culturas que foram catequizadas estão atualmente à beira do colapso.

Os semideuses infantilizados do Século XX

A palavra Hieros significa divino sob certas condições. Não é uma qualidade divina, mas o resultado de uma interação divina com os seres humanos. Por exemplo, Hieros gamos é o ato sexual, e às vezes o casamento, entre uma divindade e um ser humano. Esta situação é narrada em algumas mitologias e o resultado deste relacionamento é a geração de um herói, derivação da palavra Hieros. Os sacerdotes também utilizaram a ideia do Hieros gamos para denominar seus relacionamentos sexuais ou casamentos. 

Os heróis foram fundamentais para construção dos seres humanos em diversas culturas. Neles são vistas as virtudes e forças para superarmos os problemas mundanos de uma forma quase divina. No século XX os americanos criaram as suas figuras mitológicas, os super-heróis.

Os americanos criaram histórias para elevação institucional de uma nação que se apresenta como salvadora do mundo. Os super-heróis americanos estão a serviço da “paz e da justiça contra os inimigos da humanidade”. Eles povoam grande parte da literatura e o cinema. Os seus inimigos querem acabar ou conquistar o mundo pelos motivos mais estapafúrdios. Por trauma infantil, por inveja, para gerar o caos etc. Deus, que já salvou a rainha da Inglaterra, agora se confunde com a América e seus super-heróis exibem suas narrativas de fé. Em geral os super-heróis aparecem fantasiados e disfarçados, como por exemplo, o Capitão América. As crianças e vários adultos infantilizados se sentem no interior destes disfarces.

Os super-heróis da indústria armamentista

O “medo dos vizinhos” e a ansiedade pelo que pode acontecer criaram um grande mercado mitológico de super-heróis armados até os dentes, que sozinhos conseguem destruir inimigos quase invencíveis. Sem dó nem piedade estes super-heróis banalizam até a morte dos seus amigos, criando um cenário onde a defesa dos EUA e seu modo de vida passam a ser mais importantes que a própria humanidade. Esta é uma nova narrativa de fé, cuja base desvincula as pessoas, fomenta a intolerância e o individualismo.

Mas em certos momentos históricos a situação dos super-heróis da indústria armamentista americana fica complicada. Na vida real alguns inimigos vencem os americanos, como no caso do Vietnam. Não há Rambo ou Homem de Ferro (que nasceu na guerra do Vietnam) que consigam apagar da memória americana tais derrotas. Mas entorpecem.

Mas frequentemente as narrativas americanas também têm que mudar de inimigos, pois ao longo dos tempos eles vão se tornando aliados.  Os primeiros inimigos dos americanos, no cinema, por exemplo, foram os alemães nazistas da segunda guerra. Eles foram inimigos por cerca de uns vinte anos. Mas vários destes se tornaram aclamados cidadãos americanos, e às vezes heróis, como o engenheiro e projetista de foguetes Wernher von Braun. 

Wernher von Braun foi membro da Allgemeine, que era uma força desarmada da SS Nazista. Ao final da guerra foi contratado pela americana Joint Intelligence Objectives Agency (JIOA), que criou históricos falsos e excluiu qualquer registro do envolvimento de von Braun com o partido Nazista, concedendo a ele total liberdade para trabalhar nos Estados Unidos. A Joint Intelligence Objectives Agency era uma organização americana responsável pelo programa para capturar e levar os cientistas alemães nazistas para os Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial.

Em seguida foram os russos os grandes inimigos e ameaçadores da paz mundial. Mas com o fim da guerra fria o inimigo também esfriou. Os chineses passaram pouco tempo como inimigos, já que são grandes parceiros desde a Guerra Fria. Atualmente a China e os EUA comandam a economia capitalista mundial. 

Em 2013 a terceira edição do filme O Homem de Ferro traz consigo a mesma fórmula narrativa onde algo perigoso está para acontecer e que fatalmente ameaçará o modo de vida americano. Os grandes inimigos atuais são os terroristas, às vezes aludindo aos árabes islâmicos. Tony Stark, o empresário americano da indústria armamentista aperfeiçoa suas armas, e cria o Homem de Ferro, homem que se torna a sua própria arma para garantir, ironicamente, a paz que os americanos nunca conseguem na realidade. 

As narrativas de fé americanas, através dos seus super-heróis, mostram muita força, mas poucas soluções para os seus dramas individuais. As soluções solitárias e individualistas muito se assemelham aos crimes que aparecem no noticiário americano, mas que neles não conseguem entender a motivação.

Narrativas de fé da Amazônia

A ocupação do paraíso 

Vindos da Mongólia há cerca de 20.000 anos atrás, pelo estreito de Bering, os habitantes da Amazônia trazem uma experiência histórica nômade de luta pela sobrevivência e fácil adaptação ao paraíso da floresta. Quando chegaram a Amazônia não era habitada por seres humanos e não tiveram muita dificuldade para se instalar. 

Seis mil anos após, chegaram, em balsas, homens vindo da Melanésia, ilhas a nordeste da Austrália. No século XVI instalaram-se os portugueses, e os negros africanos a partir do século XVII. Mas o primeiro explorador europeu na Amazônia foi o espanhol Francisco Orellana, que deu o nome ao rio Amazonas. 

No século XVII os Bandeirantes penetraram na floresta à procura de madeira, ouro e pedras preciosas. Encontraram centenas de tribos com culturas estabilizadas.

Desenvolveram coletividades sem grandes estruturas hierarquizadas, sem a noção de propriedade, habitando em malocas que podiam abrigar cerca de duzentas famílias.

A relação de trabalho e sobrevivência criaram narrativas de fé que muito se assemelharam e representaram suas soluções dramáticas para viverem em uma sociedade em contato direto com a natureza.

Ser Supremo, deuses e espíritos

Os índios da Amazônia não têm um deus personificado. É um ser supremo, ancestral e mítico que lhes deu tudo. Os espíritos têm um papel fundamental de proteção das árvores, animais etc., que ameaçam os seres humanos em algumas situações. Os animais, por exemplo, têm espíritos que são seus pais protetores, que permitem que eles sirvam de caça, mas não perdoam os índios que os matarem por diversão ou para provar habilidade. Na floresta habitam muitos temidos e perigosos deuses, assim como nas manifestações naturais como trovões, tempestades, ventanias etc.

Nas histórias de fé amazônicas o Ser Supremo transforma o homem através de um deus que tem um irmão gêmeo. Um destes é trapalhão e estúpido que faz tudo errado, atrapalhando o outro que faz tudo certo. 

A criação do ser humano é uma obra composta de diversos materiais utilizados pelo Ser Supremo e pode vir do céu ou do subterrâneo, dependendo da cultura das tribos. A criação das plantas tem um significado tão importante quanto a do ser humano, pois alguns deuses, ao morrerem, dão origem a várias plantas. A ideia da árvore pode estar bastante ampliada quando consideram que certas árvores também guardam em seu tronco a água dos rios e os peixes. O fogo não é de propriedade de ninguém. Para tê-lo deve ser roubado.

Os fenômenos celestes e estrelas têm lugar destacado nas narrativas amazônicas. São personagens de vários contos, que se relacionam, muitas vezes representados por moças e rapazes.  

 O Sol e a Lua (um conto indígena)

Sol tinha acabado de passar um pouco de curare em suas flechas e guardava a zarabatana bem à mão, pronto para atirar. Não desgrudava os olhos dos galhos das árvores, prestando atenção ao menor movimento das folhas. De repente, ouviu uma gargalhada que o fez voltar-se. Sem perceber, acabara de passar por um garoto que estava sentado ao pé de uma árvore com dois magníficos papagaios.

O Sol se deteve e resolveu descansar um pouco junto deles. Nem viu o tempo passar, e, quando se deu conta, o dia já estava acabando. Não conseguia sair de perto dos dois papagaios que tanto o divertiam. Assim, propôs ao menino levar os dois papagaios em troca de seu cocar de plumas. O garoto estava muito preocupado com sua aparência, pois acabara de completar dez anos. Agora já poderia pintar o corpo com urucum e jenipapo. Seus cabelos acabavam de ser cortados, e, quando crescessem de novo, ele teria o direito de prendê-los ou fazer tranças. Seria um rapazinho… Já tinha as maçãs do rosto pintadas. Imaginava-se entrando na aldeia com aquele cocar de plumas. Aceitou com alegria o oferecimento do Sol e lá se foi, dançando, em direção à aldeia.

O Sol também estava com pressa, louco para mostrar a seu amigo Lua os dois papagaios. O amigo ficou maravilhado com a beleza da plumagem dos pássaros e se divertiu muito com as palavras engraçadas que eles diziam. Assim, resolveu adotar um deles. Escolheu o verde de cabeça amarela e o deixou em sua oca, empoleirado num pedaço de pau que enfiou no chão. O Sol também fez um poleiro para seu papagaio e o alimentou com grãos e sementes de todo tipo.

Na manhã seguinte, os amigos Lua e Sol foram pescar. Levaram arco e flecha, e também arpões, para o caso de encontrarem o pirarucu, que era seu peixe favorito, mas dificílimo de pegar. Ao anoitecer, voltando para casa, estavam muito cansados e não tiveram forças para preparar os peixes que haviam pescado. Deitaram-se nas esteiras e logo dormiram. Os papagaios pareciam tristes por vê-los assim, e naquela noite ficaram em silêncio.

Nos dias que se seguiram, o Sol e seu companheiro Lua não conseguiam entender por que os papagaios estavam tão tristes. Quando os pegavam nas mãos para que se empoleirassem nos dedos, tentando ensiná-los a falar, os pássaros pareciam não mais se divertir.

Mas um dia, ao voltarem da caça, tiveram uma dupla surpresa. Primeiro, os papagaios foram ao encontro deles, falando como nunca. Saltitavam de um ombro para outro, como se quisessem cantar e dançar. Dentro da oca, uma surpresa ainda maior os aguardava: junto ao fogo havia duas grandes vasilhas com cassa-ripe* fumegante! Quem teria preparado a comida? Eles se sentaram, comeram todo o delicioso pirão e se deitaram. Mas não conseguiam dormir. Que mistério! Os papagaios os olhavam com um ar divertido. Se pudessem falar, será que poderiam contar o que havia acontecido?

No dia seguinte, quando foram caçar, os dois tinham a cabeça cheia de perguntas sem respostas. Enquanto isso, na oca, acontecia uma cena estranha.

Os dois papagaios se transformavam pouco a pouco em duas moças encantadoras, de cabelos longos, pretos e brilhantes como a noite sob a chuva. Quando a metamorfose se completou, uma delas se escondeu perto da porta para ver quando, os dois amigos voltavam, enquanto a outra preparava a refeição.

— Depressa, não temos muito tempo! Hoje eles disseram que chegariam mais cedo. Temos de acabar antes que voltem. Quando chegam da caça, eles vêm tão cansados!

E que surpresa tiveram os dois mais uma vez! Resolveram que no dia seguinte voltariam mais cedo e entrariam escondidos pelos fundos. Dito e feito: deslumbrados com a beleza das duas moças, apaixonaram-se por elas e suplicaram que nunca mais se transformassem em papagaios de novo. Fizeram uma grande festa para celebrar os casamentos. Mas a casa havia ficado pequena demais para quatro pessoas, e por isso decidiram se revezar para ocupá-la. O Sol e sua mulher escolheram o dia. Lua aceitou a noite. É por isso que nunca vemos o Sol e a Lua ao mesmo tempo no céu.

O curioso caso do missionário que virou ateu e descobriu a “gramática da felicidade”

(From Pop-Rock to Lord)

Daniel Everett era um garoto californiano, filho de família simples de classe média baixa, que sonhava em se tornar um grande astro de country-rock. 

Aos dezesseis anos fez duas descobertas que mudaram pela primeira vez a sua vida. Uma delas foi conhecer a Karen, filha de um missionário. Daniel se apaixonou e acabou se casando aos dezessete.

A segunda descoberta aconteceu quando folheava uma revista de um amigo com fotos do Brasil. Encantado com as imagens ficou curioso ao saber que a revista pertencia a outro amigo missionário que vivia pela Amazônia brasileira. Ao conhecê-lo, Daniel também se tornou missionário. Aos vinte e cinco anos fez as malas e veio para o Brasil. Karen e os filhos só vieram alguns anos depois, em 1977, para morar com ele junto aos índios Pirahãs.

Hi´aiti´hi  

Os Pirahãs se autodenominam Hi´aiti´hi (pronuncia-se riai tchê rrê), cujo significado é “correto”.

Este grupo de cerca de 400 membros, distribuídos em quatro aldeias ao longo do Rio Maici, afluente do Rio Madeira, só fala a sua língua nativa e rejeita quase toda a influência externa. 

Os primeiros a entrar em contato com eles, há 300 anos, foram portugueses em busca do ouro do eldorado amazônico. Ao longo destes séculos a vida deles pouco mudou.

A relação que os Pirahãs estabeleceram com a natureza permite uma despreocupação que os faz prescindir de construções permanentes, assim como não necessitam estabelecer cultivos de qualquer tipo. 

A língua Pirahã é falada, sussurrada, cantada e assobiada. É muito difícil de ser aprendida, pois a sua lógica estrutural deve se assemelhar às linguagens mais primitivas (no sentido de estrutura básica das linguagens da natureza que os cerca). É uma língua bastante musical. A palavra Xaoói (pronuncia-se auê), por exemplo, significa pele, forasteiro, mão e castanha-do-pará. A diferença entre elas está no tom em que é pronunciada. 

No documentário “Língua Pirahã: o código do Amazonas (The Amazon Code)” há uma cena onde dois Pirahãs tentavam caçar um macaco. Eles se comunicavam através de uma melodia assobiada que iam informando o que pretendiam fazer. 

A língua Pirahã não dispõe de palavras para representar as cores. Não têm aritmética, números, mas apenas: pouco, grande quantidade e muito. Não sabem quantos filhos têm, mas sabem o nome de todos. Não precisam contar, eles veem apenas.

A princípio pode-se imaginar que o nível de representação é baixo e que há pouca comunicabilidade. Mas não é verdade. Eles têm um conhecimento enciclopédico de todo o seu mundo. Todos os homens, mulheres e crianças sabem o nome de cada espécie da flora e da fauna de seu ambiente. Sabem dizer o que comem as espécies, como vivem e onde são achadas.

Na língua Pirahã não tem tempo passado ou futuro. Vivem inteiramente no presente. Têm tudo a tempo, sem se preocupar com fatos do passado. Os Pirahãs vivem em uma situação de plena felicidade onde não há preocupações futuras ou arrependimentos. São extremamente calmos e dificilmente se agitam. Têm muito a ensinar de como viver o dia-a-dia. Os Pirahãs são felizes e não precisam das narrativas de fé.  Esta felicidade fez Daniel questionar sua própria. 

Nu no paraíso

Quando Daniel chegou ao Brasil, era um crente fervoroso, e segundo ele, capaz de dar a vida pela sua fé. Seu objetivo inicial era traduzir a Bíblia para comunidades indígenas e pregar a salvação através da evangelização. Estudou os Pirahãs por 30 anos, aprendeu a língua com o seu professor, o Pirahã Cohoi, com quem fez um grande laço de amizade. 

Mas as conversas doutrinárias com os Pirahãs surtiram um efeito contrário. Daniel chegou à conclusão que a sua atividade era colonialista. Um colonialismo da mente e de crenças. 

“O dilema do missionário cristão envolve transmitir uma mensagem. Precisa convencer que estão errados. Precisam estar perdidos, antes de serem convencidos de que precisam ser salvos. Os Pirahãs já eram felizes, não acreditavam no céu, nem no inferno. Levar a mensagem de Deus a eles é como levar gelo aos esquimós.”. (Daniel).

Para os Pirahãs, Deus era um forasteiro. Cohoi dizia para Daniel: “não queremos nada lá do alto, queremos as coisas que estão no solo.”. Em 25 anos, Daniel não conseguiu converter nenhum Pirahã. Deixou de ser um crente fervoroso e se tornou ateu. Esta foi a segunda grande mudança em sua vida. 

Daniel Everett perdeu-se em suas narrativas de fé diante de um povo cujas narrativas estavam o tempo todo no presente. Talvez tenha imaginado que a sua religião tivesse um conjunto de narrativas que daria conta dos dramas humanos. 

Quando perdeu a sua fé foi abandonado pela família. Largou a vida de missionário dedicando-se à sua carreira acadêmica como linguista e reitor universitário. Dedicou-se ao estudo da língua Pirahã e desenvolveu trabalhos onde afirma que esta língua tem uma estrutura gramatical não recursiva. Segundo Daniel, a gramática Pirahã não obedece aos padrões considerados universais para a formação das línguas já que os Pirahãs vivem apenas os momentos do presente. Daniel batizou a língua Pirahã como a “Língua da Felicidade”.

Histórias de fé africanas

Iorubá

Os Iorubás são um povo africano que já se constituía urbanamente desde o século IV. Os Iorubás estavam distribuídos em diversos países africanos, como Nigéria, Serra Leoa, Togo, Gana e Benin. Segundo o livro “O povo que fala Iorubá”, de A. E. Ellis, o termo Iorubá se referenciava à língua comum de diversos povos africanos. Ao longo do tempo todos estes povos foram denominados Iorubás pela língua que falavam. 

Os Iorubás eram politicamente bem desenvolvidos, pois já eram parlamentaristas muitos séculos antes de chegarem às Américas.  Os Malês, um dos grupos Iorubás, islâmicos letrados e bem organizados, quase tomaram o poder na Bahia, em uma época onde os portugueses dominantes eram na sua maioria semianalfabetos.  Os Nagôs, outro grupo Iorubá, são ainda hoje os africanos mais numerosos e influentes na Bahia. 

Sendo um povo predominantemente cristão, adotou diversas religiões, entre elas o islamismo, tendo contribuído de forma significativa para a evolução do candomblé, religião trazida para o Brasil, Cuba, República Dominicana e Estados Unidos ao longo do período escravista. Durante  este período houve uma grande expansão do que se denominou de Religião dos Orixás. Daí evoluiu-se o Candomblé, Umbanda, Quimbanda etc., da Bahia para todo o território brasileiro. Em Cuba a Religião dos Orixás deu origem à Santeria Cubana, que também foi cultivada nos Estados Unidos pelas comunidades hispano-americanas. 

A Religião dos Orixás distribui todos os seus símbolos e significados nas cores e desenhos, nos rituais das danças, das cantigas, na arquitetura dos templos, etc.

Assim como as diversas mitologias, a Religião dos Orixás se baseia em arquétipos ou modelos de comportamento dos filhos-de-santo, que dramatizam, através das aventuras míticas, a solução para os problemas cotidianos e existenciais do ser humanos. Um fator importante que diferencia esta mitologia das outras é que todos os seres humanos são filhos de dois filhos-de-santos. Não existe intermediação entre os seres humanos e as entidades, senão através de seus mensageiros. Esta lógica difere da visão cristã que faz este tipo de intermediação através de Cristo ou dde seus representantes, os clérigos. Para muitas correntes cristãs esta lógica pode parecer ameaçadora. E por isto vimos a demonização destes mensageiros, principalmente Exu.

A formação da dramaturgia 

“Um dia, em terras africanas dos povos Iorubás, um mensageiro chamado Exu andava de aldeia em aldeia à procura de solução para terríveis problemas que na ocasião afligiam a todos, tanto os homens como os orixás. Conta o mito que Exu foi aconselhado a ouvir do povo todas as histórias que falassem dos dramas vividos pelos seres humanos, pelas próprias divindades, assim como por animais e outros seres que dividem a Terra com o homem. Histórias que falassem da ventura e do sofrimento, das lutas vencidas e perdidas, das glórias alcançadas e dos insucessos sofridos, das dificuldades na luta pela manutenção da saúde contra os ataques da doença e da morte. Todas as narrativas a respeito dos fatos do cotidiano, por menos importantes que pudessem parecer, tinham que ser devidamente consideradas. Exu deveria estar atento também aos relatos sobre as providências tomadas e as oferendas feitas aos deuses para se chegar a um final feliz em cada desafio enfrentado. Assim fez ele, reunindo 301 histórias, o que significa, de acordo com o sistema de enumeração dos antigos Iorubás, que Exu juntou um número incontável de histórias. Realizada essa pacientíssima missão, o orixá mensageiro tinha diante de si todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e o governo do mundo dos homens e da natureza, sobre o desenrolar do destino dos homens, mulheres e crianças e sobre os caminhos de cada um na luta cotidiana contra os infortúnios que a todo momento ameaçam cada um de nós, ou seja, a pobreza, a perda dos bens materiais e de posições sociais, a derrota em face do adversário traiçoeiro, a infertilidade, a doença, a morte.” 

“Conta-se que todo esse saber foi dado a um adivinho de nome Orunmilá, também chamado Ifá, que o transmitiu aos seus seguidores, os sacerdotes do oráculo de Ifá, que são chamados babalaôs ou pais do segredo.”.

“Acredita-se que Exu é o mensageiro responsável pela comunicação entre o adivinho e Orunmilá, o deus do oráculo, que é quem dá as resposta, e pelo transporte das oferendas ao mundo dos orixás.”.

Trechos do livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.

Esta formação de conhecimento é semelhante a do I-Ching chinês que se baseia na ideia de que nada é novidade, tudo o que acontece já teria acontecido antes. Por isso, da mesma forma, é possível identificar no passado o acontecimento que ocorre no presente como chave para decifração do oráculo.

Originalmente este conhecimento foi decorado e transmitido oralmente. Hoje já temos uma grande quantidade de compilações escritas, em diversas línguas, realizadas por autores de todas as partes do mundo.

A tradição da adivinhação sobrevive na África e em Cuba através dos que têm prerrogativas para o oráculo, os babalaôs. No Brasil esta prerrogativa foi desvinculada da prática divinatória, podendo ser ralizada de forma não organizada, por várias pessoas, não necessáriamente babalaôs, mas que ainda preservam os orixás e suas oferendas. 

A Religião dos Orixás fala da criação do mundo, e de como ele foi repartido entre os Orixás. Ela relata uma infinidade de situações envolvendo deuses e seres humanos, animais e as plantas, elementos da natureza e da vida em sociedade. É pelo mito que se vislumbra o passado e se explica a origem de tudo, que se interpreta o presente e se prevê o futuro, nesta e na outra vida. 

Cada Orixá pode ser cultuado segundo diferentes invocações. Iemanjá, por exemplo, jovem e guerreira, é invocada com o nome de Ogunté. Mais velha e maternal é lemanjá Sabá. Assim, cada Orixá se multiplica em vários, criando-se uma diversidade de devoções, cada qual com um repertório específico de ritos, cantos, danças, paramentos, cores, preferências alimentares, cujo sentido pode ser encontrado nos mitos.

Os Orixás não são unificadamente cultuados. Dependem dos costumes do povos nas diversas regiões. Alguns têm nome diferente ou inexistem. O único presente em todos os cultos é Exu. Assim como o T’ai do taoísmo, Exu também representa o que faz todas as coisas se movimentarem. Sem ele, orixás e humanos não podem se comunicar. Na época dos primeiros contatos de missionários cristãos com os Iorubás na África, Exu foi propositadamente e grosseiramente identificado pelos europeus com o diabo e ele carrega esse fardo até os dias de hoje. 

Esta prática de caracterização demonizadora se consolidou na idade média, mas já existia há muitos séculos. Para desqualificar alguns antigos e muito cultuados deuses, o cristianismo se valeu da ideia maniqueísta do bem e do mal para valorizar e desvalorizar comportamentos, símbolos ideias etc. 

Os chifres, como símbolos, eram utilizados para representar poder e importância. Quanto mais chifres mais poderosos eram os deuses. Acreditava-se também que os chifres recebessem poderes divinos, para quem os usasse. Eram utilizados por reis e guerreiros. Vários personagens históricos utilizaram chifres, como: os Vikings, Alexandre o grande, e até por Moisés que era um sacerdote de deus único.

O tridente representava há mais de seis mil anos as três qualidades da matéria: Tamas (a inércia), Rajas (o movimento) e Sattva (o equilíbrio). O tridente mais antigo que se tem registro é o Trishula, a arma principal de Shiva, um dos deuses da religião hindu, responsável pela destruição dos defeitos da alma. O tridente é um símbolo que persiste até hoje. 

A demonização através das pernas de bode é a mais interessante. As pernas, presentes na figuração do deus Pan, e de diversos outros deuses antigos, simbolizavam a sexualidade e a fertilidade, umas das características atribuídas ao bode. Pan era o deus da fertilidade, dos instintos, das paixões, do sexo, tido como um benéfico atributo dos deuses.

Exu foi caracterizado através de uma imagem utilizada anteriormente pelo cristianismo, quando nada tem a ver com esta simbologia. Exu é apenas o movimento, por isto é caracterizado como o mensageiro. 

“A ciência Física que estuda o movimento é a Mecânica. Ela se preocupa tanto com o movimento em si quanto com o agente que o faz iniciar ou cessar. Se abstraírem-se as causas do movimento e preocupar-se apenas com a descrição do movimento, ter-se-á estudos de uma parte da Mecânica chamada Cinemática (do grego kinema, movimento). Se, ao invés disso, buscar-se compreender as causas do movimento, as forças que iniciam ou cessam os movimentos dos corpos, ter-se-á estudos da parte da Mecânica chamada Dinâmica (do grego dynamis, força). Existe ainda uma disciplina que estuda justamente o não-movimento, corpos parados: é a Estática (do grego statikos, ficar parado). De certo modo, a estaticidade é uma propriedade altamente específica, pois só se apresenta para referenciais muito especiais, de modo que o comum é que em qualquer situação, possamos atribuir movimento ao objeto em análise.” (Wikipédia).

O medo da concorrência fez as igrejas cometerem grandes atentados contra a ciência e a fé humanas. Até a física também foi demonizada ao longo da história, a Mecânica Dinâmica já foi exclusividade divina cristã.  Quem discordasse seria excomungado ou arderia na fogueira.

Uma das formas mais eficientes de dominação é o medo. A Religião dos Orixás foi transformada em bruxaria ou ritualística maléfica. É importante entender que esta é mais uma das importantes manifestações humanas pra criação de uma psicologia antropológica para solução dos dramas humanos, assim como a mitologia grega e romana. A Religião dos Orixás encontra grande preconceito pelo fato de ter sido implantada através de povos escravizados e que não tiveram estrutura de poder suficiente para garantir a sua dignidade. Além de que nela, as mulheres desempenham os mesmos poderes que os homens.

Os mitos

Os mitos dos orixás originalmente fazem parte dos poemas oraculares cultivados pelos babalaôs. Estes mitos foram organizados em dezesseis capítulos, subdivididos em dezesseis partes. Cada parte destes capítulos é denominada de Odú, onde conta uma história capaz de identificar os problemas e soluções para os seres humanos. 

lemanjá ajuda Olodumare na criação do mundo

Olodumare-Olofim vivia só no Infinito,

cercado apenas de fogo, chamas e vapores,

onde quase nem podia caminhar.

Cansado desse seu universo tenebroso,

cansado de não ter com quem falar,

cansado de não ter com quem brigar,

decidiu pôr fim àquela situação.

Libertou as suas forças e a violência

delas fez jorrar uma tormenta de águas.

As águas debateram-se com rochas que nasciam

e abriram no chão profundas e grandes cavidades.

A água encheu as fendas ocas,

fazendo-se os mares e oceanos,

em cujas profundezas Olocum foi habitar.

Do que sobrou da inundação se fez a terra.

Na superfície do mar, junto à terra,

ali tomou seu reino lemanjá,

com suas algas e estrelas-do-mar,

peixes, corais, conchas, madrepérolas.

Ali nasceu lemanjá em prata e azul,

coroada pelo arco-íris Oxumarê.

Olodumare e lemanjá, a mãe dos orixás,

dominaram o fogo no fundo da Terra

e o entregaram ao poder de Aganju, o mestre dos vulcões

por onde ainda respira o fogo aprisionado.

O fogo que se consumia na superfície do mundo eles apagaram

e com suas cinzas Orixá Ocô fertilizou os campos,

propiciando o nascimento das ervas, frutos,

árvores, bosques, florestas,

que foram dados aos cuidados de Ossaim. 

Nos lugares onde as cinzas foram escassas, 

nasceram os pântanos e nos pântanos, a peste,

que foi doada pela mãe dos orixás ao filho Omulu. 

Iemanjá encantou-se com a Terra 

e a enfeitou com rios, cascatas e lagoas. 

Assim surgiu Oxum, dona das águas doces.

Quando tudo estava feito 

e cada natureza se encontrava na posse de um dos filhos de Iemanjã,

Obatalá, respondendo diretamente às ordens de Olorum, 

criou o ser humano. humano povoou a Terra. 

E os orixás pelos humanos foram celebrados.

Iemanjá é violentada pelo filho e dá à luz os orixás

Da união entre Obatalá, o Céu,

e Odudua, a Terra,

nasceram Aganju, a Terra Firme,

e Iemanjã, as Águas.

Desposando seu irmão Aganju,

Iemanjá deu à luz Orungã.

Orungã nutriu pela mãe incestuoso amor.

Um dia, aproveitando-se da ausência do pai,

Orungã raptou e violou Iemanjá.

Aflita e entregue a total desespero,

Iemanjá desprendeu-se dos braços do filho incestuoso

e fugiu.

Perseguiu-a Orungã.

Quando ele estava prestes a apanhá-la,

Iemanjá caiu desfalecida

e cresceu-lhe desmesuradamente o corpo,

como se suas formas se transformassem em vales, monte, serras.

De seus seios enormes como duas montanhas nasceram dois rios

que adiante se reuniram numa só lagoa, originando adiante o mar.

O ventre descomunal de Iemanjá se rompeu

e dele nasceram os orixás:

Dadá, deusa dos vegetais,

Xangô, deus do trovão,

Ogum, deus do ferro e da guerra,

Olocum, divindade do mar,

Olossá, deusa dos lagos,

Oiá, deusa do rio Níger,

Oxum, deusa do rio Oxum,

Obá, deusa do rio Obá,

Ocô, orixá da agricultura,

Oxóssi, orixá dos caçadores, 

Oquê, deus das montanhas, 

Ajê Xalugá, orixá da saúde,

Xapanã, deus da varíola, 

Orum, o Sol, 

Oxu, a Lua.

E outros e mais outros orixás nasceram 

do ventre violado de Iemanjá. 

E por fim nasceu Exu, o mensageiro. 

Cada filho de Iemanjá tem sua história, 

cada um tem seus poderes.

Exu ganha o poder sobre as encruzilhadas

Exu não tinha riqueza, nào tinha fazenda, não tinha rio,

não tinha-profissão, nem artes, nem missão. 

Exu vagabundeava pelo mundo sem paradeiro.

Então um dia, Exu passou a ir à casa de Oxalá.

Ia à casa de Oxalá todos os dias.

Na casa de Oxalá, Exu se distraía,

vendo o velho fabricando os seres humanos.

Muitos e muitos também vinham visitar Oxalá,

mas ali ficavam pouco,

quatro dias, oito dias, e nada aprendiam.

Traziam oferendas, viam o velho orixá,

apreciavam sua obra e partiam.

Exu ficou na casa de Oxalá dezesseis anos.

Exu prestava muita atenção na modelagem

c aprendeu como Oxalá fabricava

as mãos, os pés, a boca, os olhos, o pênis dos homens,

as mãos, os pés, a boca, os olhos, a vagina das mulheres.

Durante dezesseis anos ali ficou ajudando o velho orixá.

Exu não perguntava.

Exu observava.

Exu prestava atenção.

Exu aprendeu tudo.

Um dia Oxalá disse a Exu para ir postar-se na encruzilhada por onde passavam os que vinham à sua casa.

Para ficar ali e não deixar passar quem não trouxesse

uma oferenda a Oxalá.

Cada vez mais havia mais humanos para Oxalá fazer. 

Oxalá não queria perder tempo

recolhendo os presentes que todos lhe ofereciam.

Oxalá nem tinha tempo para as visitas. 

Exu tinha aprendido tudo e agora podia ajudar Oxalá. 

Exu coletava os ebós para Oxalá. 

Exu recebia as oferendas e as entregava a Oxalá, 

Exu fazia bem o seu trabalho

e Oxalá decidiu recompensá-lo, 

Assim, quem viesse à casa de Oxalá 

teria que pagar também alguma coisa a Exu. 

Quem estivesse voltando da casa de Oxalá 

também pagaria alguma coisa a Exu. 

Exu mantinha-se sempre a postos

guardando a casa de Oxalá.

Armado de um ogó, poderoso porrete,

afastava os indesejáveis

e punia quem tentasse burlar sua vigilância.

Exu trabalhava demais e fez ali a sua casa,

ali na encruzilhada.

Ganhou uma rendosa profissão, ganhou seu lugar, sua casa.

Exu ficou rico e poderoso.

Ninguém mais pode mais passar pela encruzilhada
sem pagar alguma coisa a Exu.

 

Exu respeita o tabu e é feito o decano dos orixás

Exu era o mais jovem dos orixás.

Exu assim devia reverência a todos eles,

sendo sempre o último a ser cumprimentado.

Mas Exu almejava a senioridade,

desejando ser homenageado pelos mais velhos.

Para conseguir seu intento,

Exu foi consultar o babalaô.

Foi dito a Exu que fizesse sacrifício.

Deveria oferecer

três ecudidés, que são as penas do papagaio vermelho,

três galos de crista gorda, mais quinze búzios

e azeite-de-dendê e mariô, a folha nova da palmeira.

Exu fez o ebó

e o adivinho disse a ele para tomar um dos ecodidés

e usá-lo na cabeça, amarrado na testa.

E que assim não poderia por três meses

carregar na cabeça o que quer que fosse.

Olodumare disse então

que queria ver todos os orixás,

queria saber se eles estavam dando conta na Terra

das missões que Olodumare a eles atribuíra.

Oxu, a Lua, foi buscar os orixás.

Todos os orixás se prepararam para o grande momento,

a grande audiência com Olodumare.

Todos trataram de preparar suas oferendas,

fizeram suas trouxas, seus carregos,

para levar tudo para Olodumare.

E cada um foi com a trouxa de oferendas na cabeça.

Só Exu não levava nada,
porque estava usando o ecodidé

e com ecodidé não podia levar nenhuma carga no ori.

Sua cabeça estava descoberta,

não tinha gorro, nem coroa, nem chapéu, nem carga.

Oxu levou os orixás até Olodumare.

Quando  chegaram ao Orum de Olodumare,

todos se prostraram.

Mas Olodumare não teve que perguntar nada a ninguém, 

pois tudo o que ele queria saber,

lia na mente dos Orixás. 

Disse ele:

“Aquele que usa o ecodilé
foi quem trouxe todos a mim.

Todos trouxeram oferendas
e ele não trouxe nada.

Ele respeitou o tabu
e não trouxe nada na cabeça.

Ele está certo.

Ele acatou o sinal de submissão.

Doravante será o eu mensageiro,
pois respeitou o euó.

Tudo que quiserem de mim,
que me seja mandado dizer por intermédio de Exu

E então por isso, sua missão,
que ele seja homenagado antes dos mais velhos,
porque ele é aquele que usou o ecodilé
e não levou carrego na cabeça
em sinal de respeito e subissão”.

Assim o mais novo dos Orixás,
o que era saudado em último lugar,
passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos.

O mais novo foi feito o mais velho.

Exu é o mais velho, é o decano dos orixás.

Nanã fornece a lama para a modelagem do homem

Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá 

de fazer o mundo e modelar o ser humano, 

o orixá tentou vários caminhos. 

Tentou fazer o homem de ar, como ele. Não deu certo, pois o homem logo se desvaneceu. Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura. 

De pedra ainda a tentativa foi pior. 

Fez de fogo e o homem se consumiu. 

Tentou azeite, água e até vínho-de-alma, e nada. 

Foi então que Nanã Burucu veio em seu socorro. 

Apontou para o fundo do lago com seu ibiri, seu cetro e arma, e de lá retirou uma porção de lama. 

Nanã deu a porção de lama a Oxalá, o barro do fundo da lagoa onde morava ela, a lama sob as águas, que é Nanã. 

Oxalá criou o homem, o modelou no barro. 

Com o sopro de Olorum ele caminhou. 

Com a ajuda dos orixás povoou a Terra. 

Mas tem um dia que o homem morre 

e seu corpo tem que retornar à terra, 

voltar à natureza de Nanã Burucu. 

Nanã deu a matéria no começo, 

mas quer de volta no final tudo o que é seu.

Nanã esconde o filho feio e exibe o filho belo

Conta-se que Nanã teve dois filhos. 

Oxumarê era o filho belo e Omulú, o filho feio. 

Nanã tinha pena do filho feio. 

e cobriu com Omulú com palhas, para que ninguém o visse 

e para que ninguém zombasse dele. 

Mas Oxumarê era belo, 

tinha beleza do homem 

e tinha beleza da mulher. 

Tinha a beleza de todas as cores. 

Nanã o levantou bem alto no céu 

para que todos admirassem sua beleza. 

Pregou o filho no céu com todas as suas cores 

e o deixou lá para encantar a Terra para sempre. 

E lá ficou Oxumarê, à vista de todos. 

Pode ser admirado em seu esplendor de cores, 

sempre que a chuva traz o arco-íris.