AS AFRO DIVAS ESTÃO CHEGANDO

Nosso século XXI promete dar uma guinada em relação a ideias e valores hoje tão obsoletos que nos custa crer como chegaram a durar séculos sem sofrer uma revisão radical pela sociedade que os absorveu com aparente naturalidade. São verdades institucionais que sub-repticiamente dominaram corações e mentes sob o beneplácito passivo de todo o país.  Chegou a hora de fazermos um mea culpa sem disfarce ou hipocrisia. Uma das questões se refere ao AFRO RACISMO estrutural e está ligado a exploração da mão de obra escravizada.  Reverter esse sentimento da pretensa “alma branca” dos brancos é uma tarefa quase inglória. Mesmo assim, penso que não devemos desistir da empreitada, até porque essa mesma “consciência estrutural” até algumas décadas atrás, contaminava ambos os lados ou seja, tanto da parte dos discriminadores quanto dos discriminados. Sendo assim, e no caso da nossa população negra, secularmente sabia “reconhecer o seu lugar” e não invadia a seara alheia.

Finalmente os tempos mudaram, isso é visível pois, quando ocorre algum fato discriminatório a notícia vem à tona provocando revolta e estardalhaço e as manifestações de protesto são imediatas e demonstram muita força. Entretanto em sincronia verifica-se o acirramento de resistências, explícitas e violentas.

Mas o que gostaria mesmo de discutir é sobre outro tipo de preconceito, àquele velado, trancado à quatro chaves, o qual escondemos no fundo do coração e fica lá, escamoteado  sem sequer  ser  reconhecido pela própria pessoa, imune entre aspas  a tais sentimentos.  Quero trazê-lo à luz por várias razões, entre elas, colocar em evidência a marca da indiferença! Entendo que discriminar é também ignorar, invisibilizar um contingente populacional de 110 000 000 de habitantes e não levantar nem o dedo mindinho para contribuir minimamente para a sua emancipação e inserção na nossa comunidade embranquecida e esquecida do quanto lhes devemos. Nunca nenhum político fez um projeto de lei de ressarcimento financeiro aos negros pela discriminação, maus-tratos, e genocídio.

Em 2000 uma nova lufada de ar puro começou a soprar a partir da adoção do sistema de quotas por iniciativa da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a ALERJ, quando aprova uma Lei que reservava metade das vagas das universidades estaduais como a UERJ para estudantes de escolas públicas. Um ano depois, uma nova Lei foi votada destinando 40% dessas vagas à negros e pardos auto declarados e, ainda bem, extensivos aos índios. Em 20 anos essa retardatária e simples medida fez mudar a face da miséria sócio cultural dos nossos parentes negros, pardos e índios. No entanto, muita gente que diz não ter preconceito, odeia o sistema de cotas por perderem eternas vantagens e nesse item nem se dão ao luxo de esconder o sentimento. Bastou disponibilizar o acesso e os resultados estão aí para todos verem que os negros são tão iguais em igualdade de condições e muitas vezes revelando superioridade inesperada.

Até agora não fiz nenhuma distinção de sexo, mas quando introduzimos o conceito do julgamento prévio, aquele que vem antes do ser, já sabemos de antemão quais são as premissas e o ordenamento encadeado em relação a intensidade da ação, ou seja, indiscriminadamente discriminando os desiguais. A prepotência sempre veio da raça hegemônica loura de olhos azuis tendo o macho ”abastado” no comando. Quem não é abastado é bastardo ou se abastardou, se degenerou, deixou de ser raça pura. E daí vem a lógica do preconceito master ter a desigualdade principal como a diferença de classe social, depois de gênero e de raça ou etnia, ou país, ou continente, ou formação cultural, ou a integridade física, além de outros etcs e escolhas. Preconceito é ausência de empatia, de afinidade, de querência, de fraternidade, de sociabilidade, de humanidade, de reciprocidade e de tudo o mais que nos identifica como pertencentes a uma única raça humana cujo nome original poderia ser terráquea ou qualquer outro, não importa!

Finalmente falo das AFRODIVAS – seriam as novas heroínas deste século que prometem? Fico pensando se a grande revolução virá dos negros ou melhor das negras do Brasil? Por que separar os gêneros? Por princípio prefiro discutir e apostar na questão das classes sociais, volto ao ponto porque reconheço que a economia do país mantém até a política sob rédeas curtas. Se isso é verdade eterna, não há como propor nenhuma mudança de padrão e nunca poderemos conseguir que o Brasil seja um país soberano, voltado para a concretização de uma justiça social que garanta uma melhor distribuição de renda e uma igualdade de oportunidade para todo o povo. Nesses 500 anos de país foram os homens que deram o tom. Foram eles que imprimiram um modelo de governabilidade que sempre privilegiou os seus pares, ou seus iguais, e com rara exceção nunca incluíram as mulheres. No momento em que criaram uma legislação partidária com a obrigatoriedade de conter nas chapas uma porcentagem de mulheres, elas passaram imediatamente a ser usadas como “laranjas” para que a verba partidária “legalizada” fosse bem aquinhoada.  Então penso: não basta ser mulher! Só isso não resolve nosso problema político. Precisamos da mulher, das mulheres. Mas, de quais mulheres? As mulheres guerreiras. Aquelas que já sofreram na pele, tudo o que é possível sofrer: A dor da discriminação, a dor da rejeição, a dor do abandono, a dor do estupro, do parto, da humilhação, da indiferença. Aquela que é posta à prova quotidianamente. Que não sabe como vai alimentar o filho. Com quem deixá-lo  para ir trabalhar; aquela que tem de matar um leão por dia; aquela que tem as mãos calejadas; aquela que estudou à luz de vela; aquela que foi interditada no elevador, na porta principal do prédio; aquela que foi ao Shopping sendo seguida por um séquito de seguranças; aquela que ganha a metade do salário para exercer a mesma função do homem;  aquela que mereceu entrar na Faculdade através das Cotas; aquela que aprendeu o que milhares aprenderam antes dela, mas não aprenderam como ela, porque não tiveram uma sofrência que deixou cicatrizes, mas teve ganho  em sabedoria. Essas mulheres eu acabei de encontrar no AFRODIVAS, ontem sábado dia 30, aqui pertinho, no bairro do Fonseca.

Praticamente, fui a única mulher branca convidada para a inauguração. Minha primeira sensação foi sentir vergonha da minha raça. Nunca pensei que algum dia iria sentir tal mal estar pelos meus privilégios e prerrogativas. Até então acreditava ter empreendido a luta pela vida. E que todas as minhas conquistas tinham o aval do meu esforço pessoal. Que esforço ridículo, com tantas proteções que nunca me dei conta? Queria participar da reunião com a naturalidade que sempre tive. Não consegui! O que podia ensinar a quem tudo aprendera à ferro e fogo. Que empatia podia haver entre o grupo das Divas e alguém cuja face podia refletir a imagem do “capataz” ou a dona da Casa Grande? Fiquei muda mas não surda. Queria ouvi-las nos mínimos detalhes. Queria saber dos seus feitos, dos seus carismas, dos seus sonhos, dos seus projetos. Sofregamente ouvia as histórias de vida e superação. A emoção da fala de cada uma delas era contagiante. Seres guerreiras mas, antes de tudo mulheres frágeis. E a força jorrando com intensidade de suas fragilidades.

   

Pensei em contar-lhes uma passagem da minha história ainda criança e ouvindo meu pai irritado, blasfemar contra a mistura racial no Clube da cidadezinha onde morávamos. Que ambiente tosco, sem classe. Que mistura execrável ele apontava! Meu sentimento infantil começa a ser contaminado pela fala ouvida repetidas vezes. Visualizava as pessoas que eu conhecia e, até então, não havia feito nenhuma distinção em relação aos outros.  Um dia, sozinha com minha mãe, começo a repetir as palavras ouvidas do meu pai. Penso que instintivamente buscava sua fala porque o monólogo era acompanhado de um pesado silêncio. Foi então que minha mãe explodiu me colocando no pior lugar possível. Provavelmente fui a vítima do desabafo que deveria ter meu pai como alvo. Falar contra as pessoas porque não eram da nossa cor me transformou no dizer dela num ser pretencioso, desprezível, presunçoso, arrogante, desumano ou outra forma pejorativa qualquer. Uma ousadia sem limite por que esse diálogo aos 8 anos de idade, jamais saiu da minha memória junto com o sentimento de vergonha. Naquele momento   expurgou de mim, pela raíz, a erva daninha do preconceito.

Agradeço o convite das “minhas” AfroDivas. Vou tê-las no meu coração pois me deram o reconhecimento e a redenção do pecado original cometido em tenra idade. Se fui contaminada pelo preconceito, pude ao longo da vida construir o conceito sólido que me faz combatê-lo. E as AfroDivas, lideradas pela Josiane Peçanha com muita alegria e coragem construíram um espaço do bem querer, do bem fazer, do ensinamento que começa a partir das mãos, da atividade criativa das mestras artesãs. Ali estarão formando muitas Divas conscientes no seu poder fazedor, criador e transformador.

Nossa Taba TV abre suas portas para essa iniciativa e reserva no nosso SITE um espaço especial na galeria das Artes para conhecermos, acompanharmos e divulgarmos os seus trabalhos.

Niterói, 31 de outubro de 2021

Helena Reis