O MICO-LEÃO-DOURADO

PATRIMÔNIO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO JOÃO NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Quando nos debruçamos no estudo das nove bacias hidrográficas do nosso Estado, um personagem vem à tona como a nos dizer que nem tudo é problema e, basta nos conscientizarmos, para as soluções surgirem com a força do querer.

O MICO-LEÃO-DOURADO pode vir a ser o símbolo da CLAMAARJ e sobre ele gostaríamos de falar com detalhes até certo ponto ufanista. Sim porque é aqui o único lugar no planeta onde esse adorável animal escolheu para viver ou sobreviver melhor dizendo. Seu nome indígena é Sagui Piranga e mede 25 a 35 cm e com a cauda de 30 a 40 cm. Pesa em média 500gr. O pela cor de fogo vai variando a tonalidade em cada parte do corpo. Uma juba na cabeça lhe dá um certo ar imperial. Vivem em média até 15 anos e viram adultos por volta dos 18 e 24 meses sendo os machos mais precoces. A estação de acasalamento é de setembro a março. A fêmea pode parir de 1 a 3 filhotes e o período de gestação é de 4 meses.

 

O mico gosta de matas de baixada, em altitudes inferiores a 300 metros, que tenham cipós e bromélias daí, o reduto ideal encontrado foi o Poço das Antas no Rio São João. Entretanto, foram achados animais nas encostas da Serra do Mar sobrevivendo a 550 metros de altitude, empurrados pela destruição de seus habitats preferidos. Cada família de mico-leão tem em média 6 animais. São monogâmicos. Os recém-nascidos não passam mais que quatro dias pendurado ao ventre materno. Logo depois é o pai que cuida da cria. A mãe só se aproxima na hora da mamada. Ela estende os braços e o pai lhe entrega o filhote, que mama durante uns quinze minutos.

Há meio século 1971, não mais que de repente um biólogo Adelmar Coimbra Filho e um engenheiro agrônomo Alceu Magnanini tiveram a percepção de que os nossos MICOS estavam ameaçados de extinção e, ato contínuo iniciaram um trabalho de campo para evitar que isso acontecesse. No ano seguinte, um levantamento revelou a existência de 200 MICOS concentrados nas matas da fazenda do Poço das Antas. Claro que ficou patente que esse número irrisório estaria com os dias contados. Acionado o sinal de alarme os estudos foram aprofundados, criou-se imediatamente a Reserva Biológica, novos estudos foram feitos mas só uma década depois surge a Associação MICO-LEÃO-DOURADO com estrutura suficiente para implementar ações mais efetivas a curto e a longo prazo. Em síntese é importante frisar o aprofundamento dos estudos ecológicos tanto da Mata Atlântica como o seu entorno incluindo as matas ciliares que acompanham os rios, no caso a bacia do São João e Ostras.

   

   

   

A visão da Mata degradada ensejou a ideia de recuperá-la. Programas de educação ambiental ganham força e novas técnicas de reinserção ou devolução dos animais ao seu antigo habitat constitui um capítulo a parte pois vale a pena conhecer de perto os seus detalhes e desdobramentos: em 1º lugar vamos saber que animais devolvidos são esses? E pasmem, eles surgem em várias partes do mundo pois foram levados aos milhares aos zoológicos ou outros lugares da Terra. A maioria já nasceu em cativeiro mas, naquele momento o Brasil conseguiu a adesão de pelo menos 140  Zoológicos de vários países, dispostos a abrir mão dos animais cativos  e devolvê-los à natureza da qual faz parte e de onde nunca deveriam ter saído. Não resta dúvida ter sido uma tardia conscientização, mas, faz parte da nova consciência mundial. Esses voluntários da hora, foram coordenados pelo National Zoological Park, de Washington  que selecionou as famílias de micos que deveriam retornar ao seu habitat primitivo. Aqui chegando, junto com os técnicos da Associação se decidiu qual território ou reserva seriam soltos . Antes, porém de encararem a floresta, havia um período de treinamento para aprenderem a prática da independência e autossuficiência. Após a reintrodução , continuaram sendo não só alimentados cotidianamente durante um período, como monitorados e avaliados em relação a readaptação ao novo meio ambiente.

Desde 1984 ano onde a reinserção teve início foram soltos cerca de 150 Micos que somados a prole gerada no período de 48 anos significou um aumento exponencial de algumas centenas ou milhares e, o mais importante, a manutenção da diversidade genética dessa população. Outra questão paralela se refere a translocação ou resgate  dos Micos para locais mais apropriados, saindo das  pequenas nesgas de áreas florestal sem muito recurso alimentar ou de segurança onde viviam sob forte ameaça. “Em 1994 foram transferidos e soltos 94 micos. Os animais foram retirados das áreas inadequadas e soltos em áreas maiores e mais protegidas, com capacidade para garantir o crescimento futuro da população. Além de salvar e integrar grupos de micos-leões isolados, combateu-se a consanguinidade.  A translocação serviu como um laboratório de estudos sobre comportamento, alimentação e outros.”

Ao longo desse meio século, a presença dos Micos- Leões-Dourados foi fator decisivo para alavancar recursos não só para salvá-los mas, paralelamente  visando recuperar a consciência ecológica da população e também das autoridades. Claro que não devemos ter uma visão idílica mas, acredito que as matas da região já estariam devastadas não fosse a presença dos Símios . Merece destaque por exemplo dentro de um Programa Piloto para Conservação das Florestas Tropicais que teve o apoio financeiro da Comunidade Europeia, República Federal da Alemanha e Ministério do Meio Ambiente a Associação Mico-Leão-Dourado lançou em março do ano de 97 um outro projeto de Desenvolvimento Agroflorestal na região do habitat do MICO. Esse Projeto envolveu grande parte da sociedade ou seja proprietários rurais, educadores ambientais e instituições locais, isso em parceria com o IBAMA,EMATER, Programa Mata Atlântica- Jardim Botânico, além do apoio da WWF-Brasil. O resultado não precisamos pensar duas vezes, foi tão produtivo para os MICOS que a população começou a crescer além da conta, mas logo outras soluções também foram encontradas.

Como técnica inédita para assegurar a sobrevivência do mico-leão houve a  implantação de corredores florestais em áreas degradadas das propriedades particulares vizinhas à Reserva e envolvidas no projeto. Os proprietários planejaram os locais dos corredores florestais interligando áreas remanescentes de mata atlântica. Isso facilitou o deslocamento de animais e interligou as populações de micos que se encontravam em áreas isoladas. Para o planejamento dos corredores, a AMLD realizou o mapeamento de toda a zona de interesse através de levantamento aerofotogramétrico e elaborou, com a participação de grandes e pequenos proprietários de Assentamentos Rurais, de Empreendimentos e Atrativos Turísticos das Bacia Hidrográficas dos Rios São João e das Ostras, Instituições governamentais Prefeituras e Sindicatos Rurais. Tudo isso resultou num diagnóstico preciso da região rural de Silva Jardim e Casimiro de Abreu.  Na época do estudo, foi constatado que incluindo a população da Reserva de Poço das Antas, existiam 559 micos-leões-dourados na natureza, divididos em 103 grupos e ocupando uma área total de 10.500 ha. Esses indivíduos estavam divididos em quatro populações e foram encontrados, também, 12 grupos isolados em “ilhas” de mata nos municípios de Silva Jardim, Cabo Frio, Saquarema e Araruama. Avaliou-se ainda que, com exceção do grupo que vivia da Reserva, nenhum outro estava a salvo de ter problemas futuros de consanguinidade. Portanto a implantação de corredores florestais interligando fragmentos de matas dentro e fora da Reserva foi decisivo à preservação da espécie.

A AMLD estimou que por volta do ano 2.006, os micos-leões começariam a migrar pelos corredores florestais. E a previsão é que até  2.025, existirão dois mil animais soltos nas reservas. Calcula-se que o Mico-Leão-Dourado necessita de uma área aproximada de 50 ha de floresta. Muitas famílias de Micos vivem em reservas florestais privadas, em fazendas cujos proprietários estão engajados no projeto.

Material consultado: Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza.
SITE do Eco – Associação Mico-Leão-Dourado (www.micoleao.org.br) / Parque Natural Municipal Mico-Leão-Dourado

Niterói, 11 de abril de 2022.

Helena Reis