O Programa Falou e Disse recebe Lina Noronha.
Muitos brasileiros ouvem falar em Cuba como se fosse um país excêntrico e completamente diferente dos demais países latino-americanos. Na 2ª década do século XXI eu quis ver de perto essa tal Cuba que todos se referem para o bem ou para o mal. Fui lá em 3 momentos diferentes e vivi experiências bem díspares como em um acampamento internacional onde tivemos todo o tipo de interação, com a terra, participando de colheita e plantio, com inúmeras atividades culturais incluindo shows musicais, visitas a museus, palestras, além do contato direto com pessoas de diferentes países do planeta. Na última viagem me matriculei na Universidade de Havana e fiz curso de espanhol e sempre acoplado a outros programas incluindo viagens pela Ilha. Nessas oportunidades, aproveitei para adquirir Livros cubanos e uma vez no Brasil pude pesquisar com uma excelente biografia somando livros também brasileiros como MONIZ BANDEIRA, e aprofundar meus estudos sobre essa Ilha tão valorosa e tantas vezes vilipendiada. Com o material que consegui reunir poderia ter publicado um Livro. Como acabei não realizando esse desejo, através do meu programa “Falou e Disse”, posso começar a publicar alguns capítulos no meu Blog semanal às 3as feiras. Selecionei para começar o cap. inicial onde eu narro a minha 1ª experiência visceral com Cuba. Depois quis trazer uma visão histórica da formação territorial da Nação Americana incluindo suas divergências com a Ilha de Cuba. É incrível como a ex-colônia britânica se emancipa herdando o DNA dos seus ex-donos e, com voracidade de um grande Império sai conquistando território não só ao seu redor como adentrando o Oceano Pacífico até a Ásia de um lado e Oceano Atlântico e América Latina de outro. Só depois de termos essa miragem, podemos compreender porque os EEUU mantêm até hoje o bloqueio econômico de Cuba e lá se vão cerca de 64 anos. Impossível aos americanos conseguirem digerir não só seu fracasso no Vietnam, mas, principalmente não terem conseguido se apossar de CUBA tão ao seu alcance, apenas alguns quilômetros de sua ávida mão de ferro e de fera. Gostaria de interagir com vocês recebendo perguntas e questionamentos que tentarei responder. Então vamos lá:
CAPÍTULO I – CUBA: MINHA MAIOR UTOPIA
Abri meu correio eletrônico e lá havia um convite de participação em uma Brigada em Cuba – não tanto um convite, antes uma informação sobre a Brigada por ocasião da grande festa do 1º de maio –dia do trabalho. Do trabalhador melhor dizendo, daquele que em várias partes do mundo, principalmente nos países menos desenvolvidos, sobrevive ralando dia após dia, enfrentando sol e chuva, esperando transporte entupido, transito engarrafado, horas perdidas à toa nas filas dos hospitais, nas portas das escolas sem professores a implorar por uma vaga qualquer e no final do mês ser recompensado com minguado salário, tão minguado que muitas vezes mal dá para cobrir necessidades vitais pois, como se costuma dizer, sempre sobra mês no salário. E aí em Cuba a grande festa popular no país onde o trabalhador pode ser que seja o dono do seu destino ou lá também comerá “o Pão mensal que o Diabo Amassou“?
Cuba é o próprio paradoxo – não conheço nenhum país no mundo capaz de despertar tanta controvérsia, tanta polêmica, tanto amor e tanto ódio. Cada pessoa a interpreta à sua maneira. Poucos, muito poucos se deram ao trabalho de ir lá conferir tudo pessoalmente – recebem informações propagadas pela mídia, sem muita preocupação em filtrá-las ou refletir sobre elas e assim, acabam formando uma imagem deturpada, sem margem a revisões. Mas também tem aqueles idílicos absolutamente encantados com uma belíssima Ilha tropical no Caribe que teve a tremenda ousadia de enfrentar um gigante que habita em seu entorno e para tirar-lhe a tranquilidade mantém há anos sua pata bélica pesada dentro da casa do outro. Para estes admiradores e torcedores este inimigo mortal jamais vai levar a melhor e juram que tudo vai dar certo na pequena e heroica Cuba e o resto é intriga da oposição.
Há quatro anos dei uma passada meteórica em Cuba e fiquei com o gosto de quero mais. Não se pode conhecer um país fazendo programas sight seeing, se hospedar em hotéis 5 estrelas ou jantar em restaurantes de luxo. Longe de mim ter agido assim pois entendo que conhecer um país é transitar em seu cotidiano, interagir com seus habitantes, mergulhar em sua cultura, transpassar nossas próprias experiências e olhar o outro atentamente, mas, com olhar amoroso e solidário e isso exige um certo tempo e total disposição. E que não tenhamos a pretensão de conseguir decifrar nenhum enigma, apenas tentar arranhar alguma compreensão desde que de antemão estejamos despidos de julgamentos ou conceitos prévios.
E foi isso que tentei fazer nesta nova viagem à Cuba da qual volto muito modificada e com um certo grau de perplexidade pelas vivências intensas, prazerosas e inéditas que vivi. Foi uma sucessão de boas surpresas- Sem haver criado nenhuma expectativa, súbito me deparo com uma variedade de experiências tão ricas e jamais imaginadas. E olha que não sou nenhuma neófita ou marinheiro de 1ª Viagem, falo com a experiência de múltiplos deslocamentos por vários continentes do Planeta sem preocupação com o tempo cronológico, sempre antenada e com olhos bem abertos e aguçados, olhando com olhar de ver.
BRIGADA 1º DE MAIO – ACAMPAMENTO JÚLIO ANTONIO MELLA – abril de 2012
Saí do Rio de Janeiro no sábado dia 21 de abril – Literalmente um dia histórico pensei. Já no aeroporto olhava os passageiros tentando descobrir se haveria alguém com um ar de “brigadista”muito embora soubesse que o ar não tem cara e ainda mais, querer descobri-lo entre humanos. Só na chegada em La Habana, ainda no aeroporto, me deparei com a Flávia, uma guria carioca com um chapeuzinho charmosíssimo e que também estava sendo recebida pelo “contato” que me esperava. Pegamos um ônibus tipo Pulmann onde havia outros brigadistas e de lá rumamos para o acampamento Júlio A.Mella que fica mais ou menos a 80 km da capital La Habana no município de Caimito. Da janela do Pulmann a estrada parecia imitar o Parque do Flamengo com muitas palmeiras, gramados e vegetação exuberante. De repente caiu minha ficha e pensei como seria este acampamento. De antemão sabia ser muito simples e sem o conforto burguês a que estamos habituados nas nossas casas -estou pagando para ver me cobrei!
E o que vi nos 15 dias de vida como “brigadista” comprovou minha antiga tese de que somos muito mal habituados na vida mas, ainda há tempo de uma neo reformulação básica – mais da metade do nosso tempo ou perda de tempo gastamos trabalhando para ganhar dinheiro e depois usá-lo para comer, comer, comer, beber, beber, beber, comprar, comprar , comprar- iguarias industrializadas, muita comida que nos tornam obesos, muito conforto que nos impede de andar, de levantar, querendo tudo ao alcance da mão, perseguimos status, bens, objetos e uma parafernália assustadora de quinquilharias das quais não conseguimos mais nos livrar ou prescindir sob pena de nos sentirmos infelizes e perseguidos pela má sorte. O vício do consumo nos consome diariamente – é uma droga que nos leva a uma compulsão desenfreada e a competição desvairada. Ouço dizer que há pessoas com 80 pares de sapatos. Outros colecionam camisas ou calças muitas das quais nem saem da gaveta. Tem também os colecionadores de bebidas, de perfumes, de joias, de carros, de móveis, tapetes, e corpos – não há equívoco – o corpo também é objeto de consumo!!! E muitos tem suas coleções particulares saídas das telas, das passarelas, sei lá de onde e produzidas ao modo das academias, das clínicas, dos spas diversos …
Já deu para entender por que falo mal do nosso desejo consumista justamente no momento em que vou descrever o acampamento básico – j. A. M. com quartos coletivos para seis pessoas em média, com roupa de cama de simplicidade franciscana e a toalha de banho tirada da nossa mala. O grande conforto eram os ventiladores – dois de cada lado das 6 camas. Os banheiros coletivos e separado por tipo de função também incluía as pias-tanques- multifuncionais – escovar os dentes, pentear os cabelos, lavar o rosto e a roupa de uso diário. Descrito assim parece coisa de pobre, mas não era, e por que faço esta distinção? Porque o Acampamento “basicão” era na verdade um luxo tremendo, sob meu ponto de vista ecológico-existencial- despojado, com quadras de esporte, quadras sociais onde depois rolou muito show, muita música e muita dança de todos os ritmos entre eles a salsa, o merengue, a rumba, boleros, um grande e confortável auditório, biblioteca, sala de internet, um barzinho, uma lojinha, um grande refeitório tipo bandejão e muita vegetação, muito espaço, muito verde, muita gente transitando, muito tudo. Lá havia uma energia no ar que nos deixava elétrica, exuberante e plena de vida.
Aos poucos os brigadistas de 24 países foram chegando e o entusiasmo crescendo. Ao todo vieram 250 pessoas – da Ásia vi coreanos e japoneses, não tive tempo de interagir com eles como muitos brasileiros fizeram e, dizendo depois que haviam curtido muito – da África os Senegalenses davam o tom com uma indumentária impecável tanto dos homens quanto das mulheres, mas estas se destacavam não só pela beleza como pelo colorido das roupas cujo tecido à luz do sol ofuscava a vista com brilho similar aos sambistas de Escola de Samba. Mas o cetro para o grupo mais animado – tipo torcida do Flamengo, coube aos chilenos. Em todas as práticas coletivos lançavam seu grito de guerra repetindo o bordão CHI, CHI, CHI, Lê, LÊ, LÊ – salve CHI LE. Uma farra só. Tinham liderança e organização – na linha de frente vinha o queridíssimo Drago Lopes com seu rabinho de cavalo e uma simpatia tão grande que me fez desejar voltar ao Chile. A maioria era de uma cidade do Norte do Chile, perto do Deserto de Atacama e chamada Iquique. Os Colombianos não ficavam atrás e também disseram a que vinham. A maioria era sindicalista da área médica ou jurídica. Uma grande equipe com cerca de 30 pessoas. Outros sul-americanos: uruguaios, argentinos, brasileiros, costarriquenhos e um único representante do Haiti –um jovem cuja juventude, olha o pleonasmo, nos remetia a um ar quase adolescente e dono dos dentes mais brancos e o mais lindo sorriso contrastando com a pele negra – era o Bastiá e com ele estava completo o time dos latino-americanos. Nossa Flávia teve até medo de se apaixonar por ele tal era a magia que Bastiá lançava a todos nós. Mas a Flávia não precisava se preocupar pois esse era um fenômeno que nem os homens escaparam. Sozinho o guri deu conta do recado e se fez representar em todos os momentos com firmeza, coragem e inteligência que a minha visão deturpada, ao considerar o Haiti um dos países mais atrasados do mundo, não havia imaginado à priori. Ah, quase me esquecia de falar da representante de Granada uma estonteante ilha do Caribe e também famosa pelas especiarias. É o 1ª produtor mundial de noz moscada. Fica para depois falar dos grupos do sudeste da Ásia e da Europa.
E O GALO CANTOU
Na véspera como já sabem, tinha sido nosso primeiro dia no Acampamento com as Brigadas chegando e se alojando. À noite portanto, que ninguém é de ferro houve uma tremenda festa de recepção tipo “Boas-Vindas” com show de qualidade e depois muita música para a moçada cair na dança ou no ridículo na tentativa de iniciar seus primeiros passos nos ritmos caribenhos. Só mesmo com auxílio dos “mojitos” a bebida típica cubana feita com rum, suco de limão, hortelã e açúcar foi possível superarmos a falta de jeito em dominar o suingue local. É verdade que os colombianos porque são caribenhos estão excluídos dessa avaliação crítica, pois bailam mucho.
Na manhã seguinte, lá estava ele o “Galo da Madrugada” a cocorocar histericamente para nos acordar – “acho que este galo deve ter sido importado direto do Carnaval do Recife”! Depois da noitada da véspera, teve muito que esgoelar para nos arrancar do sono dos justos e nos lembrar do nosso primeiro dia – tarefa em solo pátrio cubano, ou seja, ir para o campo ralar, trabalhar a terra, ganhar o pão com o suor do rosto e a enxada na mão. Aqui faço um parêntese. Quando ouvia falar em “Brigadas” me imaginava cortando cana. É que Cuba, desde a época em que era colônia espanhola foi grande produtora de Cana e depois da revolução, este continuou sendo o seu principal produto de exportação. Che Guevara quando Ministro da Indústria inventou as Brigadas para estimular e impulsionar o trabalho nos campos através do trabalho voluntário. Os cubanos mesmo trabalhando nas cidades, fossem estudantes, professores, intelectuais, eram estimulados a darem sua contribuição na construção da Pátria Socialista. Por isso saiam do seu descanso e nos fins de semana exerciam o trabalho voluntário na lavoura aprendendo assim, o valor e a importância de preparar a terra, de semear e de colher os frutos com suas próprias mãos. Por ocasião do corte de cana, quando a demanda de braços aumentava, a tarefa exigia um trabalho em mutirão. Che Guevara mesmo sendo um homem de saúde frágil com sérias crises de asma, dava o exemplo, “varava” à noite no Ministério trabalhando e, de manhã saía bem cedo para os campos de cana, e era um dos que mais produzia.
Na verdade, a construção do socialismo em uma Cuba rodeada de poderosos inimigos não era uma tarefa fácil, muito pelo contrário, e é bom que hoje reconheçamos seu caráter épico. E Che Guevara é a imagem paradigmática desta epopeia. Imagine um homem comandando um Ministério como um Guerrilheiro nas selvas querendo superar todos os limites. Quando compreendeu por exemplo que deveria impulsionar projetos que substituíssem o corte manual de cana, até então feito a pé com um homem manejando um facão, por máquinas cortadeiras, se deparou com uma dificuldade elementar: não havia máquinas cortadeiras nem na União Soviética e muito menos em Cuba. E aí o guerrilheiro empreende uma batalha em busca de uma solução rápida – pesquisa o que existe e tenta imitar uma cortadora do Havaí, depois procura adaptar um tipo de cortadeira sul africana. Finalmente obtém um modelo experimental que fica pronto em março de 62 e a partir daí Che ordena a produção de mil cortadeiras a serem acopladas em cima de um trator comum de 50 cavalos e que depois da colheita tivesse utilidade em outras tarefas agrícolas. Sem muito esforço de imaginação posso ver Che testando o seu protótipo na Província de Camaguei desde às 4 horas da manhã do dia 5 de fevereiro. Atrás das máquinas vão os repassadores, uma dezena deles, cortando as canas e os tocos mais altos que a máquina deixou para trás: são denominados “cortadores do Che” – também presente o engenheiro idealizador da máquina Ángel Guerra e Miguel Iparraguire, que controla a experiência. Sucesso total pode-se dizer- após 9 horas e meia de trabalho foi cortado 6 mil arrobas de cana, mas é bom que se diga que durante este tempo, várias vezes, a cortadora ficou parada enquanto Che exasperado, no ápice da tensão, descia do trator para ver que merda estava acontecendo. No dia seguinte quase 9 mil arrobas, em 1 semana o record de 60,5 mil arrobas. O que vou contar não é folclore – um jornalista do Periódico “Révolución“ entrevista Che alguns dias depois da experiência e lhe pergunta quanta cana cortara e ele seco responde: 10 arrobas e uma pata. Quando no dia seguinte Che lê a notícia, vocifera contra o jornalista lhe chamando de besta pois havia deturpado o sentido da palavra “pata “ao pensar que fosse uma gíria argentina equivalente a “pico” que em Cuba quer dizer, um pouco mais. Na verdade Che havia se referido ao seu chefe de escolta que tinha se aproximado muito da máquina e ferido com as facas a perna e a “pata”.
Che tem pressa muita pressa é este seu estilo- o estilo Che até hoje impõe sua marca. E é nesta onda que anuncia a fabricação de mil máquinas dizendo que o aperfeiçoamento das mesma virá através da prática. Karol um analista de Che pontua: “Nenhum país do mundo pensou em produzir mil máquinas sem antes fazer um protótipo.”
No discurso de Che aos cortadores e burocratas ele diz: “Vou fazer o meu próprio elogio aqui. Segunda feira comecei a cortar com a máquina; no começo aconteceu o de sempre, quebraram as correntes ou isto e aquilo, a máquina batia nas coisas e até tivemos um acidente por causa de companheiros que não tomaram as devidas precauções. A máquina está cortando 4 mil arrobas no local onde está sendo testada- eu mesmo já cortei esta semana 45 mil. As máquinas podem cortar uma média de 800 arrobas por hora de trabalho em campos de tamanho médio, eu diria que é tarefa não para um, mas para dois operadores, não é possível pedir ao pessoal que fique 12 horas em cima de um trator”. No final diz: “defendo a máquina mesmo sendo complicada e tenha um alto nível de avarias, porque cortar cana é duro, porque cortar cana é um trabalho exaustivo, pesado, e além do mais não tem graça nenhuma, porque o canavial não acaba nunca”.
Em 14 de fevereiro, a equipe de Che é avisada que um campo de cana próximo está em chamas e todos correm para lá; se a cana não for cortada perdem o açúcar. Seus companheiros procuram detê-lo por razões de segurança – poderia ser um ato de sabotagem. Mas Che grita ‘VAMOS LÁ” e ninguém consegue detê-lo. Se cortar cana é difícil imaginem um campo de cana queimado com pó e cinzas flutuando no ar até provocar um ataque de asma no chefe. Ele respira angustiosamente, coberto de fuligem dos pés à cabeça, empapado de suor, mas está lá, liderando, dirigindo, insuflando seu grupo.
Quando parte para Camaguey havia cortado as 100 mil arrobas que prometera. Este é o Che- o homem de ação, sem direito ao cansaço, ao lazer, que não gosta de retórica, nem de demagogia, nem de promessas que não possam ser cumpridas. Em uma entrevista perguntado se fumava, se bebia e se gostava de mulheres respondeu: Se não gostasse de mulheres não seria homem. No entanto, deixaria de ser revolucionário se deixasse de cumprir nem que fosse uma só das minhas obrigações e dos meus deveres conjugais. Eu trabalho entre 16 e 18 horas diárias, durmo seis horas quando consigo. Não bebo, mas fumo. Não tenho tempo para diversões e estou convencido de que tenho uma missão no mundo, e que devido a essa missão devo sacrificar a vida doméstica e todos os prazeres da vida diária.
E assim sob a energia mítica de Che Guevara- ainda hoje se reproduz esses momentos de solidariedade humana- partimos para os campos de cultivo da região. Vários caminhões estavam à nossa espera – cantando e acenando para o povo das cidadezinhas por onde passávamos, chegamos ao nosso destino. Divididos em grupos exercemos várias atividades: de semeadura, transplante de mudas e principalmente de varredura, ou seja, literalmente catar mato livrando as áreas de plantio das ervas daninhas. E como são daninhas – se enraízam no solo e vão se arrastando como cobra e perturbando as plantações de IUCA- é a nossa conhecida mandioca / aipim, e o MAIS nosso milho, e as frutas cítricas ainda pequenas como papaya, goiaba, laranja, limão, etc. Trabalhamos variando de campo e cultura durante quatro dias e assim mesmo só na parte da manhã. A equipe que dirige o Acampamento afirmava com veemência ser nosso trabalho muito importante – a cooperação de 250 pessoas não deixa de ser uma mão de obra que faz render qualquer produção. Eu pessoalmente compreendia àquela programação como parte de um treinamento prático, para uma compreensão e ligação visceral com Cuba. E isto funciona! O conhecimento meramente intelectual não modifica facilmente uma pessoa. A vivência sim. Hoje tenho meu cordão umbilical preso à Cuba – é um comprometimento emocional porque me identifiquei com a terra cubana, com seu povo cheio de entusiasmo, a nos ensinar a melhor forma de manejar os instrumentos de trabalho e que depois viraram nossos Hermanos na intimidade do trabalho coletivo. Por tudo isso devo dizer que este trabalho apesar de básico e meteórico nos deu uma certa legitimidade, ou seja, nos tirou de uma zona de conforto e comprometimento onde deixamos de ser meros turistas, tipo mariposa deslumbrada, a borboletear em rápidos voos o país visitado e lá deixando com certa empáfia seu dinheiro e seus maus costumes.
A VULNERÁVEL POSIÇÃO GEOPOLÍTICA CUBANA
Ao falarmos da herança histórica e étnica de Cuba não podemos isolá-la do seu contexto geopolítico junto aos demais países do Caribe. Ainda que os idiomas sejam diferentes pelas distintas colonizações, as similaridades são flagrantes.
Nas últimas décadas do século XVII, a presença de potências europeias na área alcançou sua máxima expansão – França, Inglaterra, Holanda, Dinamarca, Suécia todas tentando arrebatar à Espanha, de todas as maneiras, os numerosos territórios caribenhos. Daí vem o processo de balcanização do Caribe que perde sua unidade e se fragmenta em inúmeras possessões de países europeus. Apesar desta distinção que vai gerar línguas diversas, muitas semelhanças podem ser observadas – todos os colonizadores exterminaram suas populações indígenas – todos importaram mão de obra escrava da África; todos os seus povos foram explorados por monopólios- todos os trabalhadores produziram cana e muito açúcar para enriquecer o colonizador- também tiveram de trabalhar muito duro extraindo seus recursos naturais em benefício dos exploradores estrangeiros – e todos receberam em troca a mesma herança de subdesenvolvimento e pobreza, de incultura ,de analfabetismo, de falta de atenção médica e assim sucessivamente(1).
O caráter de fronteira de impérios, desde muito cedo, balcanizou o Caribe e o manteve como área colonial submissa e subserviente, praticamente até a metade do século XX, muito embora neste processo, cada país tenha apresentado suas estratégias e peculiaridades. Como exceção temos de destacar o Haiti que no início do século XIX (1804) mais de um século à frente das outras Colônias assume a liderança e consegue a sua independência da metrópole francesa. Desde 1791 o Haiti já havia dado início ao seu processo de luta através da insurreição dos escravos que liderados por Toussaint Louverture lograram abolir a escravidão. O segundo movimento independentista vem da República Dominicana (1865) estas datas marcam o apogeu do sistema colonial europeu quando então começa a entrar numa 2ª fase marcada pelo declínio desta hegemonia que sem delongas encontra substituto. É o momento em que vamos assistir o começo da supremacia americana.
O processo de Independência de Cuba e Porto Rico já se dá neste novo contexto. No capítulo da luta cubana para se emancipar da metrópole espanhola o que mais pesou foi ter ao seu lado a potência americana cujo traço fundamental era a intenção de apoderar-se não só da Ilha como de toda a Região. Este propósito começa a ser gestado desde 1823 quando foi promulgada a Doutrina Monroe – no texto já fica explícito o grande interesse dos EEUU pelas costas do Caribe e particularmente pelas Ilhas Cubanas. Imiscuiu-se como falso aliado, na verdade, um ávido vizinho se disfarçando no bonzinho Tio Sam quando na realidade já estava planejando uma intervenção militar e, na etapa seguinte a anexação de Cuba ao seu território. Aliás quem quiser entender o porquê do espírito aguerrido cubano, tem de conhecer alguns detalhes de sua epopeia nas duas frentes de luta pela emancipação uma contra a Metrópole e a outra contra o candidato a ocupar este mesmo lugar assim que vagasse.
Desde esta primeira intervenção os EE UU pela proximidade geográfica, inaugurou novas formas de dominação colonial no Caribe. É Joaquin Santana Castillo (2) quem diz: Os EE UU quando ocuparam Cuba em 1902 estabelecendo uma república com soberania limitada e sob os preceitos da “Emenda Platt”, saíram fortalecidos como potência regional emergente. Desde então, diversos graus de domínio passaram a exercer, inclusive em países independentes. Anexaram Porto Rico, Filipinas, Guam, Havaí, depois o Panamá – interviram na zona do canal e forçaram a separação panamenha da Colômbia impondo uma espécie de protetorado a recém-inaugurada República e que foi depois ocupada militarmente em diversas ocasiões. Intervenção às Aduanas da República Dominicana em 1905 e uma ocupação militar entre 1916 a 1924. E muitas outras sob qualquer outro pretexto. Em Cuba (1906–1909-1917) Nicarágua (1909, 1912) (3) quando desembarcaram fuzileiros navais como forma de assegurar a vitória do partido conservador e depois (1924,1927-1933); República Dominicana (1911 e depois 1916); Haiti (1915 até 1934) Em 21 de abril de 1914 os “mariners” e fuzileiros navais invadiram o México. (4) Em 1927 o congresso mexicano aprovou leis de proteção às suas reservas petrolíferas com base no que determinava a constituição de 1917 que subordinava a propriedade privada ao interesse social e a autoridade do Estado – a medida contrariou os interesses de companhias americanas exploradoras deste setor como a Standard Oil. Imediatamente o México foi acusado pelo Governo americano de realizar uma política ditada por Moscou e a tensão entre os dois países cresceu tanto que quase romperam relações diplomáticas com possibilidades de eclosão de uma guerra.
No Governo de Franklin D. Roosevelt ainda que tenha proclamado a política da “boa vizinhança”, em 1954 houve ingerência americana na Guatemala durante o Governo de Jacob Arbenz, invasão da República Dominicana em 1965, Granada em 1983, Panamá (1989) e a conspiração contra a Revolução Sandinista na Nicarágua.
Porto Rico foi simplesmente anexado ao território americano e é um porto-riquenho que viveu esta história e manifestando revolta contesta: “Refuto o anexionismo portorriquenho que tem o inconveniente de subordinar a riqueza e a independência econômica de Porto Rico a torpe política econômica dos Estados Unidos“. (5) E ele constata em 1900 que o predomínio no país dos piores representantes do espírito americano teve como resultado o roubo de Porto Rico. Uns anos antes deste roubo, um historiador Mariano Abril Ostaló (6), demonstrava a força da penetração econômica americana no seu país”; teríamos sim trens elevados a cruzar nossas ruas, portos amplos e bonitos… porém tudo isso em suas mãos… E passado alguns anos a indústria, o comércio, até a agricultura, tudo estaria monopolizado pelos yankee. E quando teríamos a liberdade – exército yankee, marinha yankee, polícia yankee, tribunais yankee, porque tudo isso é necessário para proteger seus interesses. O escritor venezuelano Cesar Zúmeta assinala que nos EE UU as tradições democráticas tinham sido substituídas pelo direito de conquista e que a A. Latina afetada pela monocultura, e doente pela anarquia, as ditaduras, as dívidas com outros países, e o desprestígio de suas instituições, podia ser presa fácil das ambições imperiais norte-americanas.
Nosso historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira (7) realizou um trabalho de investigação por mais de seis anos através de ampla bibliografia, acesso à consulta de documentos oficiais divulgados ou inéditos , depositados em arquivos de vários países como Estados Unidos, Cuba, Brasil, República Democrática Alemã – somado à entrevistas com cientistas políticos, governantes e lideranças em vários países e em Cuba com seus principais líderes como Fidel Castro e Che Guevara e mais do que isto uma experiência adquirida em 40 anos através da vivência e do conhecimento direto , tanto dos fatos quanto dos personagens. O que perseguia Moniz Bandeira? Aprofundar uma compreensão sobre o processo da Revolução Cubana – Explicar os fatores que levaram a população de Cuba a manter-se solidária com a Revolução apesar de todas as vicissitudes em consequência do contínuo embargo econômico dos Estados Unidos e ainda mais rígido após o desmoronamento do Bloco Socialista com o qual ela mantinha mais de 85% do seu comércio exterior agravado pela falta de mercadorias e a escassez de combustível numa ameaça de paralisação do próprio Estado – Estudar a evolução dos conflitos entre Cuba e os EE UU nos anos posteriores à vitória da revolução e entender como se processou a aproximação com a URSS não como fato intencional mas como única decisão possível.
Entretanto, de todos os objetivos e hipóteses que levanta, uma delas me soa tremendamente importante: A comprovação de que Revolução Cubana foi autóctone, e teve um caráter profundamente nacional. O fato deste regime ter seguido um modelo dos países do leste europeu foi uma mera contingência histórica na medida em que os EE UU não respeitaram os princípios da sua soberania nacional e da sua autodeterminação. Já vimos nos parágrafos anteriores os resultados da política expansionista americana, mas, Moniz Bandeira vai além para que tenhamos mais claro como surgiu este Império e porque Cuba se sentia tão ameaçada.
A formação dos ESTADOS UNIDOS data de 1776, mas, nesta época, com outra configuração muito mais modesta, ou seja, seu território ia somente da costa Atlântica até o Mississipi – nem Flórida, Porto de Nova Orleans, Califórnia, Novo México, Oregon, Texas, nem Arizona, faziam parte do seu território. Vinte anos depois, o presidente Thomas Jefferson dá início ao processo de expansão territorial e começa a comprar terras – da França adquiriu por U$ 15 milhões de dólares, uma pechincha; a Louisiana com míseros 2,5 milhões de Km 2 de uma vasta e rica planície que se converteu depois na maior produtora de grãos do mundo e, somado a isto, pode também controlar todo o sistema hidrográfico da A. do Norte que vai do porto de Nova Orleans até o delta do Mississipi. Moniz Bandeira (43) analisa a tendência americana para o messianismo nacional com a crença de povo eleito por Deus cujo “destino manifesto”, seria expandir suas fronteiras até o Pacífico, passando pelo Havaí, projetando-se sobre uma Ásia entorpecida. Isto implicava, obviamente, na conquista da California, e de uma vasta área entre ela e o Texas conhecido como Novo México. Na primeira oportunidade, numa disputa de fronteiras no governo de James K. Polk, os americanos entraram em guerra com o México e, que após a derrota teve de ceder 2,4 milhões de Km2 de uma região riquíssima em ouro. Outros colonos já estabelecidos no Texas desde 1821 criaram também condições para desprender-se do México e em 1945 o Texas é anexado aos EUA. Em 1833 missionários metodistas e presbiterianos, com o pretexto de converter os índios, começaram a penetrar na região do Oregon à noroeste da América do Norte e na época controlada pela Grã-Bretanha que havia sido o grande império colonial de outrora, mas, nesse momento, incapaz de manter seu monopólio industrial pressionados pelos EUA, Alemanha e França. E aí mais uma anexação a do Oregon (1846) tornou-se inevitável.
A política expansionista continua, quase nunca utilizando o recurso “civilizado” da compra, mas, preferindo formas mais agressivas como a invasão militar ou ameaças e pressão – mais uma vez sobre a Espanha, para que cedesse a Península da Flórida. Com tropas o Secretário de Estado John Quincy Adams conseguiu arrancar um tratado e enviar o governador espanhol sediado na Flórida com todos os seus soldados para Havana. Este mesmo John Q. Adams também pretendia a anexação de Cuba. A ideia da anexação da Ilha cerca de 80 anos antes, é quase uma novela com muitos personagens e uma trama muito complicada. Tentando uma síntese devo apresentar primeiro a sinopse do enredo: o ávido expansionismo americano – o tráfico de escravos tendo a Inglaterra como protagonista principal reprimindo a atividade – a divergência americana entre o Norte abolicionista e o Sul escravocrata- A Espanha com dificuldades em manter seu império colonial e usando a questão abolicionista como jogo político. Agora podemos começar a desenvolver o enredo: Havia uma oferta americana de comprar Cuba da Espanha por U$ 100 milhões de dólares, valor muitas vezes maior que o preço da Louisiana. Quem tratava da transação eram uns dirigentes do Club de Havana. Os fazendeiros cubanos tinham medo de que a Espanha cedesse à pressão da Inglaterra e abolisse a escravidão. Como solução planejavam: ato 1 – tornar Cuba independente da Espanha – ato 2- pedir a sua anexação aos EEUU. Como a Espanha recusava firmemente vender ou ceder a Ilha, os fazendeiros acabaram desistindo da ideia de anexação por temerem que uma das consequências da guerra de independência pudesse ser a libertação dos escravos. Os espanhóis, na verdade, tinham este coringa na manga e a qualquer sinal de perigo simplesmente decretariam a abolição contando de imediato com a adesão dos negros, recém libertos, à guerra que estaria sendo travada. E é claro que os fazendeiros não iriam correr o risco do tiro sair pela culatra. A questão era também complexa para os americanos pela possibilidade não só da guerra com a Espanha envolvendo a Grã-Bretanha e a França, mas pela sua própria questão interna com o crescente antagonismo entre o sul agrícola escravista e o norte industrial abolicionista. No caso de anexarem Cuba com seu regime escravocrata seria uma forma de reforçar o similar regime do sul.
O tempo passa e novas campanhas e articulações continuam a ser feitas apesar de nunca se chegar a bom termo. Em 1852 o novo presidente dos EEUU Franklin Pierce compra mais um pedaço do México e planeja como maior realização do seu governo obrigar a Espanha a vender Cuba pela qual estaria disposto a pagar U$ 130 milhões de dólares. Entretanto para conseguir efetuar a compra dependia do Senado onde seria difícil obter 2/3 dos votos pela oposição da bancada do norte – antianexionista e defensores da abolição da escravidão.
Como vemos a questão colonial nas proximidades do século XX vai assumindo outra cara, ou seja, a nova nação americana com vocação de Império, à medida que se fortalece quer abocanhar tudo à sua volta, fosse através da compra ou da conquista. É um confronto de forças. Moniz Bandeira (47) relembra as palavras do Ministro Brasileiro em Washington Sergio Teixeira de Macedo que já em 1849 observara não existir um só país civilizado onde a ideia de provocação e guerra fosse tão popular quanto nos EE UU – “A dilatação de suas fronteiras não só as territoriais mais também econômicas e políticas tendiam ir além da Costa do Caribe e do Pacífico. O embaixador temia que Império americano se estendesse até a Venezuela, Colômbia, Equador e chegasse às fronteiras brasileiras e aí seria difícil contê-los e não perder a Amazônia. Esse temor não era absolutamente infundado uma vez que o pres. Pierce na mesma época em que comprou mais um pedaço do México também pretendia assentar seus escravos no vale do Amazonas uma região que no seu entender deveria ser republicanizada e anglosaxonizada e, depois se constituiria na República Amazônica onde os EEUU transplantaria sua população negra.
Após o término da Guerra Civil americana (1861 – 1865) com a vitória das forças do norte quando houve a integração do sul agrícola e atrasado à sua economia industrial e eliminada a escravidão, os EE UU entraram novamente em uma fase de expansão em todas as frentes e também houve o aumento contínuo através de recrutamento de imigrantes na ordem de 2 milhões e 400 mil na década de 1870 para 5 milhões e 300 mil em 1880. Em 1867 a potência compra o Alasca da Rússia. O que foram os EE UU antes da guerra de Secessão, um país ainda de pequenos negócios, transformou-se depois radicalmente. Houve um processo de concentração e centralização da economia surgindo novas formas de associação empresarial como pools, trustes, cartéis e sindicatos com objetivos de monopolizar mercados e fontes de matéria prima assim como controlar preços e exportar capitais. Em tais circunstâncias com as forças produtivas do capitalismo, indo além dos limites do estado nacional, a América Latina, agrícola, atrasada, se configurava como a continuidade natural do seu espaço econômico (49).
Finalmente nos últimos anos do século XIX e início do XX os EEUU encontram sua chance de dar o golpe de misericórdia na Espanha assumindo o domínio do seu despojo colonial revelando como diz Moniz Bandeira, todo o caráter imperialista de sua política que se equiparou a de outras potencias da Europa e assustou inclusive os povos da A. Latina. Sobre a questão faz referência ao nosso notável jurista Rui Barbosa, Ministro da Fazenda nos primeiros dias da República, e opositor à Doutrina Monroe considerando-a uma falácia e previu que com a vitória dos EE UU sobre a Espanha, a diplomacia europeia teria de encontrar um “modus vivendi” adaptável a política imperialista da Casa Branca (56). Entretanto é importante frisar o apoio que o governo americano encontrava entre donos de jornais como William Hearst conhecido como o magnata da Imprensa e responsável por manipular a opinião pública a favor da política expansionista. Sua personalidade autoritária e tendenciosa ficou explícita como o “Cidadão Kane” levada às telas por Orson Welles. Pois bem, Hearst propagava suas ideias, dentre elas o chamado “destino manifesto“, como uma predestinação americana para defender os povos de todo o mundo sob o ideal rotulado de “democracia”.
De fato, nesse momento os EEUU atacava brutalmente os espanhóis, em várias frentes, sob o pretexto de ajuda e reforço às rebeliões anticoloniais que ocorriam em Cuba e nas Filipinas. A Espanha totalmente despreparada, com equipamentos antiquados, quase não ofereceu resistência. Nas Filipinas, a principal batalha é travada no dia 1º de maio na baía de Manila com navios modernos e bem equipados contra a antiquada frota espanhola com navios caindo aos pedaços. A rendição foi rápida e as Ilhas Filipinas foram anexadas como 1ª colônia americana e ato contínuo também se apossaram de Porto Rico sua 2ª colônia e em Cuba a história se repete, mas, a sequência não foi a mesma. Neste momento havia 200 mil espanhóis em Cuba e apenas 12 mil foram mobilizados para defender a cidade de Santiago – ali foi travada a maior batalha terrestre entre espanhóis e americanos. E no mar a outrora tão temida frota espanhola foi por eles arrasada sem sofrer qualquer baixa.
Os EUA tinham pela Ilha interesses diretos não só econômicos relacionados com o açúcar e o tabaco, mas sobretudo estratégicos. A possessão de Cuba estava dentro do mesmo contexto de posse de Porto Rico e das Ilhas Virgens que o presidente americano McKinley queria negociar com a Dinamarca para estabelecer alí uma base naval e depósito de carvão. Na realidade, aquela região do Golfo do México, era uma rota de fundamental importância estratégica e também porque, havia planos de se abrir um istmo ou canal na região do Panamá. O mesmo McKinley queria também se apoderar não só de Cuba como também de tudo o que restasse do Império espanhol não só no Caribe como também no Pacífico. Em 1898 a Espanha além de renunciar sua soberania sobre Cuba ainda cedeu aos EUA na condição de colônia o resto das Indias Ocidentais, inclusive Porto Rico no Caribe e Guam, além do Arquipélago das Filipinas no Oceano Pacífico e neste mesmo ano adquire também o Havaí.
Para não concluirmos que os americanos conquistaram este espólio espanhol sem nenhuma reação por parte dos povos colonizados, que se viram de repente mudando de mãos, é importante frisar, que os filipinos se rebelaram no último ano do século XIX e os EUA levaram três anos para esmagar a insurreição numa ação militar que mobilizou 120 mil soldados e cujos combates provocou a morte de 4 mil soldados americanos e mais de 200 mil filipinos, civis em sua maioria, vítimas das bombas que também explodiam nas lavouras provocando a fome.
Cuba formalmente libertada do jugo colonial, passou a ser administrada pelos americanos, que mantiveram os rebeldes locais à margem do poder e estabeleceram um protetorado sobre Cuba. O objetivo era criar condições para que Cuba se dispusesse a aceitar “voluntariamente”, a anexação e a tática usada por Roosevelt foi obrigar Cuba a incorporar na sua constituição uma emenda aprovada pelo Congresso Americano a que limitava sua soberania (56).
Este acordo é conhecido como “Emenda Platt” – nome do senador americano que a elaborou – no texto o governo cubano se curva à várias exigências americanas como o direito americano de controlar a política externa do país impedindo de celebrar com outras nações tratados e pactos, contrair dívidas, o direito de intervir nos seus assuntos internos e até militarmente sobre o pretexto de proteger a vida, a liberdade e os bens dos seus cidadãos e o mais grave: sumariamente se outorgam o direito de comprar e arrendar parte de seu território para estabelecer bases militares e depósitos de carvão e assim surge a base militar em Guantánamo no sudeste da Ilha que fixava um prazo até 1999. Deste prazo já se passaram 24 anos e ainda continua em suas mãos e o mais grave servindo de prisão de tortura a qualquer cidadão do mundo, principalmente árabes, sob alegação de suspeita (56) de terrorismo.
A Emenda Platt não ficou portanto só no papel ,ao contrário ,Cuba durante a 1ª metade do século XX se viu à mercê do gigante do Norte sempre pronto à manipulá-la a seu bel prazer, desconsiderando a legitimidade de seus governos ou melhor colocando no posto títeres e fantoches como Fulgêncio Batista .Estava certo José Marti quando afirmava que Cuba tinha de lutar contra dois inimigos ao mesmo tempo a Espanha e os EEUU e ele que havia vivido muito tempo neste último cunhou a célebre frase “Conheço o monstro porque vivi nas suas entranhas“.
José Martí é reconhecido como um líder político o mais completo, pois além de uma extrema sensibilidade se identificando com os setores populares, àqueles a quem chamava de “os pobres da terra”, é também um intelectual voltado para a filosofia e a poesia.
Martí viveu o momento de amadurecimento intelectual em Nova York onde acompanhou a fase da plenitude do capitalismo americano aliás, no exato instante de sua plena expansão financeira. Nos Estados Unidos trabalha como jornalista e seus artigos chegam às páginas de importantes periódicos da Argentina –La Nación, do Partido Liberal do México e da Opinião Nacional da Venezuela trazendo uma visão extremamente acurada e rica. As crônicas que escreve para La Nación são consideradas magistrais como àquela em que assinala as causas que motivaram uma greve em Chicago com respeito ao cumprimento da jornada de trabalho de 8h. O fascínio inicial em relação a democracia liberal americana gradativamente começa a ser modificada à medida em que constata seu aprisionamento a uma república de classes totalmente condicionada e submetida ao ideal de riqueza.
Claro que este não seria o modelo de sociedade que queria para a sua Cuba e suas ideias são explicitadas no seu famoso ensaio “Nuestra América“.
Se diz que com Martí se produziu um estranho caso em que um só homem foi ao mesmo tempo o maior pensador, o maior escritor, o maior poeta e o maior político de uma nação. Martí lidera uma Guerra de independência onde morre e daí a grande frustração cubana de não ter sido governado por este homem notável que acaba se transformando em uma figura tão mítica que beira ao sagrado. Como não exerceu nenhum mandato e nem foi um presidente real que viesse a cometer erros e equívocos, sua memória foi preservada sem nenhuma mácula ou pecado. Daí porque muitos querem até transformá-lo em santo. Essa herança maravilhosa e utópica por não ter tido oportunidade de se realizar está na raiz da busca cubana por um futuro grandioso, um ideal libertário e independente à la MartÍ, se expandindo e acolhendo em seu seio outros povos irmãos.
A 1ª metade do século XX foi caracterizada pela intromissão e invasão americana à Ilha de Cuba. A política do “big stick” ou do dólar diplomacy como é conhecida não se limitou como já vimos apenas à Cuba mas a toda a vizinhança do México passando pelo Caribe e chegando aos países da A.do Sul , num desrespeito flagrante à soberania de todos eles .O predomínio sobre toda aquela região tinha duas vertentes por um lado a irreprimível necessidade geopolítica de manter o predomínio sobre os territórios às suas costas numa alegação de defesa ,de outro a aguçada necessidade capitalista de expansão de mercado .Mas Cuba sempre esteve na mira do desejo americano de posse -do ponto de vista freudiano realçaríamos o valor da beleza e sensualidade da Ilha, porém deixando de lado estas ilações , reconhecemos que ela é tão preciosa principalmente por sua estratégica posição geográfica . Isto acirrou e ainda acirra a avidez do povo neocolonialista, seu vizinho de porta, cujo braço a Flórida, se trabalhasse um alongamento de corpo, estilo yoga, penso que poderia alcançá-la e possuí-la num estreito abraço.
De 1925 a 1930 houve uma terrível crise econômica sem precedente na história de Cuba e que se somou a vários motins, distúrbios e greves, anarquia ,caos administrativo e pouco tempo depois algumas tentativas de insurreições entre elas uma sublevação, mas nenhuma logrou êxito somente resultou em maior repressão ,prisões e fuzilamentos .O ministro do Brasil em Havana Francisco Clark menciona que Cuba é uma democracia de farsa, sob a severidade tirânica de um ditador disfarçado e que é paternalmente tolerado pelo seu grande protetor do Norte porque este lhe serve aos seus interesses materiais e políticos dando total apoio aos capitalistas yankees , que aqui decidem com grande desplante a vida social, econômica, financeira e fiscal desta “ colônia autônoma “.
Neste momento Franklin Roosevelt do Partido Democrata havia ganho as eleições nos EEUU e para modificar um pouco o comportamento tradicional escudado na Emenda Platt não queriam fazer nova intervenção em Cuba e por isso enviaram um novo Embaixador que teria também a função de árbitro cuja missão seria encontrar as saídas para o impasse político harmonizando um modus vivendi entre o Presidente Machado e as forças de oposição. A estratégia foi bem-sucedida até que uma greve geral de transporte que começou em Havana, mas acabou se estendendo por todo o país, leva novamente a insurgência até a tentativa de tomar o Quartel de Moncada por Fidel e seu grupo com posteriores desdobramentos até o momento em que Fidel , Raul Castro, Che Guevara e outros companheiros decidem ir para Sierra Maestra onde desenvolvem uma guerra de guerrilha nas selvas buscando a adesão da população rural até conseguirem a vitória final.
NOTAS
(1) Roberto Fernández Retamar – El Caribe a los 50 años de la Revolución Cubana – p. 7
(2) Joaquin Santana Castillo – Repensando El Cariba: Valoraciones sobre El Gran Caribe Hispano- p. 61-62
(3) Emenda Platt – ver p. 59
(4) IBID – Joaquin Santana Castillo – p. 62
(5) IBID Joaquin Santana Castillo citação de Eugenio María de Hostos – p. 65
(6) IBID citando o historiador Portorriquenho Mariano Abril Ostaló – p. 65
(7) Luiz Alberto Moniz Bandeira – De Martí a Fidel – A Revolución Cubana y América Latina
(8) IBID Cap. 1 – Cuba minha maior utopia do Livro “Tu me ensegnaste Cuba”
Niterói, 08 de fevereiro de 2026.
Helena Reis

