O Programa Falou e Disse recebe Luiz Gonzaga Belluzzo.

Muitos brasileiros não entendem com muita clareza o que vem ocorrendo nos EE UU nas últimas 3 a 4 décadas. O mito do país do sucesso, da liberdade, da justiça é proclamado aos quatro ventos, mas, de forma a escamotear a verdade dos fatos. Por isso precisamos rever o que lá acontece, aprofundando os detalhes das últimas crises focando principalmente na de 2008 conhecida como a do Subprime ou Imobiliária e desnudando a verdade através das suas próprias lideranças. Trazemos, portanto, à cena o economista Joseph Stiglitz cujo protagonismo vai na contramão de outras lideranças na medida em que sua postura incorruptível revela isenção de propósitos, clareza de objetivos e coragem para apontar os erros e propor soluções fortes, coerentes e necessárias. Um dos seus livros notáveis chama-se “O Mundo em Queda Livre”. Lê-lo é entrar em choque pela descoberta de conteúdos escondidos a sete chaves. Como se sabe a grande crise começou no Governo de Bush e adentrou o Governo de Barack Obama. Foram 2 presidentes que governaram em 2 períodos sucessivos e cada um representando partidos diferentes o republicano e o democrático. Uma das principais questões em relação a crise imobiliária refere-se ao custo que significou para o país salvar a irresponsabilidade dos Bancos. Uma das frases lapidares que Stiglitz repete reiteradamente era a afirmação do mercado de que os “Bancos eram grandes demais para falir”. Na verdade, tão grandes que as regras normais do capitalismo tiveram que ser suspensas para proteger os acionistas e credores – sem propor ao mesmo tempo, que eles fossem divididos ou taxados, ou objetos de restrições adicionais, de modo que não voltassem a usar a mesma prerrogativa de continuarem a serem grandes demais para falir. Traduzindo em miúdo, os ricos ou os super ricos sabem que o Estado está a seu serviço e deve cobrir suas incompetências ou aventuras no afã de se enriquecer ainda mais. E quando o Governo muda de mãos, de Bush para Obama a mesma lógica permanece, a começar pela manutenção da mesma equipe econômica do Banco Central. A fluidez da transição sugeria que nada havia mudado. Imagine “Paulson”, Secretário do Tesouro e também diretor – presidente do Goldman Sachs havia dado 89 bilhões de dólares para ajudar a AIG uma grande corporação de seguros e finanças que ficou famosa por receber esse valor, mas depois esse montante foi triplicado para 180 bilhões de dólares já na gestão de Obama. Sempre houve um conflito entre a Wall Street e o resto do país. Mas desta vez como afirma Stiglitz, os bancos apontaram um revólver na cabeça do povo americano: “Se vocês não nos derem mais dinheiro, vão sofrer.” Não há escolha – assim diziam eles: se vocês nos impõem restrições, como impedir o pagamento de bônus ou dividendos, ou responsabilizar nossos executivos, nunca mais poderemos levantar capitais no futuro. A Wall Street usava o medo do colapso econômico para extrair enormes somas de dinheiro do contribuinte americano. Bush aceitava a chantagem, mas, muitos pensaram que com Obama seria diferente e não foi.

A crise do Sub Prime deve ser entendida com alguns detalhes. Para explicá-la Stiglitz já começa colocando um título “A fraude das hipotecas”. Essa talvez fique na história como a maior fraude do século XXI e surge de uma forma muito perversa pois foi imaginada como a possibilidade de realização de um sonho que permeia o comum dos mortais ou casais em todo o mundo, ou seja, serem os donos da casa onde habitam e onde querem viver e criar seus filhos na magia ou sonho de uma felicidade eterna. Justamente nesse momento de concretizar um ideal possível são facilmente cooptáveis a ser usado como instrumento ou bucha de canhão por pessoas absolutamente inescrupulosas e ávidas em ganhar dinheiro com facilidade. O truque articulado pelos Bancos e Cias Hipotecárias foi oferecer às pessoas a compra de casas cujo pagamento seria através de uma hipoteca de valor bastante razoável e de modo geral acessível ao comprador.  A má intenção já era previsível uma vez que não existia nenhum rigor ou verificação das condições financeiras do possível comprador. Tanto assim que os candidatos eram selecionados sem nenhum critério, daí o pseudônimo que passaram a receber de NINJA que significa, no income, no jobs, no asset cuja tradução é: sem renda, sem trabalho, sem patrimônio. Muitas pessoas foram ingênuas e não imaginaram que estariam caindo num golpe. Muitos não tinham a chamada hipoteca convencional que funcionava de forma aparentemente plausível. Esses “ignorantes” de plantão com renda abaixo do normal, eram inclusive estimulados pelos emprestadores a tratar suas casas como se fossem caixas eletrônicas, tomando sucessivos empréstimos contra o seu valor. Stiglitz cita um caso de Doris Canales que ficou ameaçada de cobrança executiva depois de ter sido financiada treze vezes em seis anos com hipotecas sem papéis, que requeriam nenhuma ou pouca documentação quanto à renda ou quanto aos ativos. “Eles telefonavam e perguntavam: escuta você está precisando de dinheiro do Banco? E eu dizia: certo. Eu preciso de dinheiro do Banco. Muitos formulários apresentados aos Bancos eram falsos nesse e em muitos outros casos. Suicídios e divórcios ocorreram por todo o país quando os tomadores de empréstimos viram que suas casas não lhe pertenciam. Até mesmo pessoas que continuavam a pagar suas taxas e prestações tiveram suas casas leiloadas, sem mesmo saber. Essas histórias podem não ter sido a regra, mas ocorreram e, podemos saber que os EE UU além de ter enfrentado uma tragédia econômica abriu também uma ferida social. A estimativa é de que cerca de 6 milhões de famílias perderam suas casas ou seja 10 milhões de pessoas foram desalojadas entre 2007 e 2012. Na escalada da crise 1, 3 milhões sofreram execuções hipotecárias em 2007; 2,3 milhões em 2008; 2,8 milhões em 2009, ou seja, em 3 anos houve uma explosão histórica de despejos. Como diz Stiglitz: Os Bancos que criaram os títulos financeiros tóxicos foram socorridos pelos Governos enquanto milhões de famílias perderam suas casas. Bancos resgatados e famílias despejadas. O sistema financeiro recebeu trilhões em salvamentos públicos, mas milhões de pessoas foram prás ruas. O mercado privatizou os lucros e socializou os prejuízos. Quando os Bancos lucram o dinheiro é embolsado por eles, quando quebram, a conta vai ser paga pela sociedade. Esse é um sistema que protege o capital e abandona os cidadãos. A crise de 2008 não foi um acidente: foi o resultado de um sistema financeiro desregulado. O que precisa ser dito com toda a clareza foi o apoio incondicional do Banco Central Americano conhecido como FED. O Federal Reserve criou diversos programas emergenciais de crédito. Mais de US$ 16 trilhões foram disponibilizados em linhas de liquidez e empréstimos ao sistema financeiro entre 2008 e 2010 e incluiu empréstimos tanto aos bancos americanos quanto europeus e grandes fundos financeiros. A estimativa total do custo econômico da crise é em torno de US$ 10 a US$ 20 trilhões em perdas de riqueza nos EUA. Grande parte veio da queda do valor das casas e do desemprego. Stiglitz aponta as contradições: trilhões mobilizados para salvar bancos e milhões de famílias despejadas. E mais: poucos anos depois do colapso do subprime os maiores bancos americanos voltaram a registrar lucros gigantescos como o JP Morgan Chase- Em 2013 cerca de US$17 bilhões; Bank of America, lucro em 2013 US$ 11 bilhões; Goldeman Sachs US$8 Bilhões. Somando os grandes Bancos os lucros anuais voltaram a ultrapassar US$ 100 bilhões por ano e paralelamente o contraste social de 6 milhões de pessoas que perderam suas casas e mais de 10 milhões foram desalojadas. É por isso que Stiglitz não deixa de assinalar o real significado desses dados. Fica claro e transparente quem o sistema realmente protege. Não há nenhuma dúvida que a responsabilidade da crise financeira cabe aos bancos. Foram eles os responsáveis direto por milhões de pessoas perderem suas casas, e outros tantos enfrentarem cobranças executivas até 2012. Irresponsavelmente colocaram em risco a poupança de toda uma vida de milhares de pessoas, persuadindo-as de que podiam viver além dos seus próprios meios. Foram eles que venderam ativos tóxicos exportando sua própria crise para outros lugares com prejuízo mundial. Entretanto, em algum momento foram criminalizados ou responsabilizados pelos crimes? A resposta é não. Nenhum grande executivo da Wall Street foi condenado à prisão por provocar a crise. Pelo contrário, foram socorridos com trilhões de dólares em dinheiro público. É preciso também apontar algumas exceções quando em algum momento os instrumentos financeiros que os bancos e emprestadores usaram para explorar os pobres também lhes foram fatais. Esses instrumentos foram concebidos para extrair a maior soma de dinheiro. O processo de securitização proporcionava taxas infindáveis que por sua vez proporcionava lucros sem precedentes, que também proporcionava bônus inéditos. Olha a corrente do pecado. Tudo isso ofuscou o julgamento dos banqueiros os quais na ocasião podiam ter suspeitado que era bom demais para ser verdade e que tal prática era insustentável. Daí a pressa em ganhar em tempo record tudo o que pudesse até que o sistema entrasse em colapso como entrou. Muitos executivos do sistema sofreram muitas perdas. Outros, entretanto, aproveitaram a confusão para ganhar milhões de dólares e até centenas de milhões. Mas nem o colapso conteve a sua ganância como assinala Stiglitz.

Outra questão, tem a ver com o papel crucial desempenhado pelo FED durante todo esse período desde a formação da crise e, tem a ver com o afrouxamento da regulação na gestão de Greenspan, baseada na premissa de que o mercado funciona bem e assim, há pouco o que regular e pouco o que temer com relação a bolhas. Entretanto, a subida vertiginosa no preço dos ativos, significava que havia uma festa acontecendo em Wall Street. O bom senso tradicional indicava que o FED deveria conter essas festas, mas, nem Greenspan ou seu sucessor Bernanke quiseram ser desmancha prazeres e tiveram de inventar uma série de argumentos falaciosos para explicar por que se mantinham à parte afirmando que as bolhas não existiam e, se caso existissem não poderiam ser identificadas; e que o FED não dispunha de instrumentos para desinflar as bolhas. Por todo o planeta os presidentes dos Bancos Centrais têm promulgado a doutrina de que as Instituições que dirigem devem ser independentes do processo político. Stiglitz questiona esses argumentos da máxima independência dos Bancos Centrais. Sob o seu ponto de vista a política econômica envolve trocas que não devem ser deixadas exclusivamente nas mãos dos burocratas. A política monetária envolve trocas entre inflação e desemprego. Os credores se preocupam com a inflação e os trabalhadores com o emprego. E essas duas questões se entrelaçam, mas são controversas. Voltando a falar sobre a independência do B.C. sobre um assunto não pode pairar dúvidas: quando um B.C. se dedica a levar a termo um resgate de grandes proporções, pondo em risco o dinheiro público, está praticando uma ação que requer responsabilidade política direta e consequentemente deve ser feita com transparência. Stiglitz não deixa de mencionar ocorrências desse tipo através do FED como o resgate de 13 bilhões de dólares que foram para o Goldman Sachs. Muito dos custos reais de resgate e programas de empréstimo feito pelo FED – e o nome dos beneficiários dos presentes tão generosos continuam em segredo. A questão seríssima se refere aos ativos tóxicos que foram transferidos dos Bancos para o Governo, o que não lhes retirou o caráter tóxico e tudo isso sem contabilidade transparente. Diversos comentaristas se referiam aos resgates gigantescos e às intervenções na economia como socialismo ao estilo americano sendo que a comparação deixa a desejar uma vez que o socialismo significa uma preocupação com o povo. E o socialismo americano esteve longe disso. Se o dinheiro tivesse sido gasto para ajudar aqueles que estavam perdendo suas casas, a comparação seria correta, mas, o que de fato ocorreu foi uma versão ampliada da Rede de Proteção Social das “Corporações” ao invés de ser usada para proteger os indivíduos. Mantendo a analogia é essa a verdadeira essência do socialismo americano. O B.C. unido a Wall Street e outros conchavos não só compraram a desregulamentação como salvaram o sistema financeiro da bancarrota.

O Mundo Em Queda Livre escrito em cerca de 500 páginas nos traz formações preciosas. Daí aconselhar a todos que se interessaram pelo tema que não deixem de lê-lo de cabo à rabo, e não se limitem às minhas resumidíssimas páginas. Antes de finalizar quero mencionar que a crise de 2008 não foi exclusivamente imobiliária. Aquele momento de fervilhante imaginação do mercado em busca do ganho de dinheiro fácil, se esmerou em criar amplas alternativas. Uma outra inovação do sistema financeiro em sintonia com a compra imobiliária foi a emissão de papéis de todo o tipo que tornou as instituições absolutamente interligadas através dos chamados Derivativos. E qual era a intenção da vez. Muito próxima à noção de Bancos tão grandes para falir. Nesse caso – Derivativos: interligados demais para falir. E foi assim que os Mercados inovadores, de repente começam a emitir toda a sorte de produtos. Todos muitos complexos e não transparentes como os CDOs (Instrumentos Co lateralizados de Dívidas), reagrupando, reempacotando as hipotecas, transformando-as em títulos imobiliários e novamente reagrupando e reempacotando esses títulos para criar produtos mais e mais complexos. A fase da especulação em torno de coisas concretas como milho, ouro, petróleo já estavam fora de moda, o mercado passou a inventar produtos “sintéticos” derivados de algo muito tangível. Na essência é que o seu valor vem derivado do produto de hoje, mas projetando o seu valor no futuro, ou seja. apostar hoje no preço que algo terá amanhã. E assim os investidores usam, para apostar na variação de preços. Hoje se negocia muito mais apostas sobre preços do que sobre produtos reais. Na esteira dos Derivativos surgiram os Fundos Hedges que em inglês significa proteção, swaps, subprime, Var, Bistro, Bad Banks e todo esse conjunto conseguiu, desde 2008 financeirizar ainda mais a economia.

Finalizando, Stiglitz conclui porque perdeu a confiança no capitalismo americano e, faz uma analogia entre 2008 e a queda do muro de Berlim em 1989. Duas datas limites que destruiu as duas ideologias a socialista e a capitalista. A queda do Muro no seu entender inviabilizou o socialismo a ponto de Fukuyama proclamar o fim da história definindo a democracia do capitalismo de mercado como o estágio final do desenvolvimento da sociedade. Muitos historiadores irão definir os 20 anos posteriores como o curto período de triunfo americano até a data do colapso de Lehman Brothers em setembro de 2008. Essa data passa a ser a referência do início do “fundamentalismo” do mercado, ou seja, o aguçamento da percepção de que os mercados não podem ser livres e agir por conta própria para garantir a prosperidade e o crescimento, muito pelo contrário. Com o colapso dos grandes Bancos e casas financeiras os problemas dessa ideologia se tornaram indefensáveis. Hoje só os desavisados podem afirmar que os mercados se autocorrigem e que a sociedade deve acreditar que os interesses próprios dos participantes do mercado garantem o funcionamento “Correto e Honesto” da economia e que tem a preocupação de estender seus benefícios a toda a sociedade. Stiglitz aproveita para avaliar a exigência americana em submeter o planeta aos valores das ideias neoliberais como fórmula mágica para o funcionamento harmônico das sociedades. Endossa a crítica feita pelos países do Terceiro Mundo em relação a maneira como os EE UU responderam a crise mencionada do Subprime de forma antagônica a crises anteriores, ou seja, colocando em evidência como a Nação “hegemônica” age com dois pesos e duas medidas. Há uma década durante a crise no Extremo Oriente o FMI exigiu que os países atingidos reduzissem os déficits governamentais cortando seus gastos – ainda que, como na Tailândia, isso resultasse em um recrudescimento de AIDS e na Indonésia e Paquistão, significasse a redução do auxílio alimentar para os famintos. Os EEUU forçaram os países a aumentar as taxas de juros em alguns casos como a Indonésia para mais de 50% por cento. Deram lições `de como endurecer com os seus próprios bancos e exigiram que o governo não os salvasse. O contraste entre o tratamento dado à crise do Extremo Oriente e à crise americana é forte e não ficou esquecida. Para tirar os EEUU do buraco, o governo aumentou drasticamente os gastos e os déficits públicos e baixou as taxas de juros a zero. As pessoas do Terceiro Mundo perguntam: por que os EEUU tomam um remédio diferente na crise? A resposta. Países em desenvolvimento são obrigados a seguir políticas pró-cíclicas (corte de gastos, aumento de impostos e taxas de juros). O país desenvolvido segue políticas monetárias e fiscais anticíclicas. Vamos entender isso melhor com Belluzzo. No mundo em desenvolvimento, muitos sofrem com as intimidações de anos e anos: tem de adotar instituições e políticas americanas. Abrir o mercado aos bancos americanos para aprender as boas práticas e vender seus balanços a preço de liquidação durante as crises. Diziam a eles que o sofrimento causado por isso valia a pena e lhes prometia um futuro melhor. Os Secretários do Tesouro dos americanos de ambos os partidos eram enviados por todo o mundo para pregar esse evangelho. Daí eu fico por aqui.

Niterói, 15 de março de 2026.

Helena Reis