O Programa Falou e Disse recebe Hiran Roedel.
Fidel Castro faria 100 anos. Um revolucionário que ousou desafiar o poder norte americano e marcou a história. Hiran Hoedel nos conduz por essa epopeia, em um livro que reúne vozes como a de Frei Betto, Edmílson Martins etc.
Essa história tem início na 2ª metade do século XX ou seja 1959 e tem continuidade no nosso século XXI. E o que mais nos impressiona sobre a revolução cubana é seu caráter de audácia e coragem. Como ressalta Edmílson Martins na pág. 97 Cuba até 1959 “era conhecida como bordel dos Estados Unidos, com uma economia totalmente dependente, subordinada à máfia, às corporações açucareiras, aos cassinos, à pobreza, à exploração e à prostituição.” Situada nas fronteiras do território americano cerca de 100 km navegando pelo mar do Caribe, lá aportavam os magnatas em seus iates luxuosos de férias ou fim de semana, sempre alucinantes, numa atmosfera de filme hollywoodiano povoado de garotas sensuais e absolutamente à mercê de seus desejos espúrios. E isso, sem necessidade sequer de apresentar passaporte. Como assim, não mais que de repente esse povo amigável e convertido ao ideário do “american way of life”, se transforma em combatentes que não temem a luta. Ato contínuo derrubam ditadores e transformam a ilha paradisíaca em terra de guerrilheiros audaciosos? Em Sierra Maestra se prepararam para o embate e nunca se intimidaram que seu mais caloroso e poderoso vizinho ficasse insatisfeito, raivoso e quisesse acabar com a tal da festa. A revolução destruiu a velha ordem e proporcionou algo totalmente inimaginável, ou seja, direitos ao seu povo, antes dominado. Mas vamos por parte: quais foram as mudanças estruturais da sociedade cubana pós-revolução que proporcionaram novos contextos transformadores? Vamos começar abordando dois setores o da Educação e da Saúde. Começando da base, Cuba conseguiu eliminar em tempo recorde o analfabetismo da Ilha e gradativamente foi ampliando a formação profissional até o nível universitário. Pari e passo sua grande prioridade vai para o setor da saúde formando enfermeiros, farmacêuticos e principalmente médicos. E, por incrível que pareça a medicina cubana, pasmem vocês, passou a se destacar como a melhor medicina do mundo e este foi um dos grandes desafios de Fidel Castro quando permitiu no início da revolução, a saída de mais de 2000 médicos cubanos que abandonaram intempestivamente a Ilha e foram morar nos EE UU cooptados por altíssimos salários que lhes foram oferecidos. Em entrevistas à Ignacio Ramonet do ‘Le Monde Diploma tique” que culmina com a publicação do Livro: “Cem horas com Fidel Castro”, percebemos como um problema pode proporcionar não uma solução medíocre, mas uma compreensão que leva a uma superação profunda e duradoura. Diz Fidel: “Penso que em 10 anos teremos formado 100 mil médicos, além dos que já formamos vindos de outros países e, voltando para lá. Somos formadores de médicos e podemos formar 10 vezes mais médicos do que os EE UU país que nos levou boa parte dos nossos profissionais, fazendo todo o possível para nos privar deles. Na continuação do diálogo Ramonet relembra um acontecimento ocorrido em 2005 quando o ciclone ‘Katrina’ arrasou N.Orleans nos EE UU e Cuba lhes ofereceu 1.610 médicos para fazer face à tragédia. E Fidel Castro faz a seguinte observação: “foi exatamente esse país que em 1959 quis nos deixar sem médicos e ao fim e ao cabo foram eles que acabaram sem médicos quando mais precisaram”. E não deixa de aproveitar o momento para sinalizar o quanto a assistência médica americana é precária sobretudo para aqueles que não tem como pagar enquanto Cuba, tem hoje a melhor medicina do mundo e sem custo para a população. Merece destaque as ações de solidariedade de Cuba aos demais países do planeta sempre que ocorre algum evento ou tragédia climática. Assim podemos citar: Envio a Guatemala através do contingente “Henry Reeves” de mais de 700 médicos por ocasião de terremoto e ao Paquistão, a Cachemira., Nepal, Haiti, Venezuela. Serra Leoa e Guiné agravado por crises sanitárias ou epidemias como o ebola. Ramonet enfatiza a solidariedade internacionalista de Cuba não só em matéria de saúde e Edmílson ressalta a formação das brigadas cubanas ativas em qualquer lugar de tragédia no planeta, em zonas de risco como na África e até na Usina Nuclear de Chernobyl. Sozinha Cuba cuidou de mais crianças de Chernobyl dos que todos os países juntos do mundo e a presença dos médicos cubanos que serviram em mais de 60 países, inclusive no Brasil onde tem inúmeras regiões onde os nossos médicos não vão e nem querem clinicar. Desde os primeiros anos da Revolução, Cuba também investiu na formação de quadros para os chamados países do 3º Mundo criando Universidades específicas para eles como a Escola Latino-Americana de Medicina e ofereceu bolsas integrais para milhares de jovens da A.Latina, Caribe, África Asia e Brasil.
Quando falamos na solidariedade cubana ao mundo dois paradoxos vem à tona: em quase 70 anos de revolução quais os problemas que Cuba tem enfrentado e se o planeta procura retribuir de alguma forma essa ajuda espontânea que vem recebendo há mais de meio século. Vou me ater inicialmente a 2 questões primordiais uma é o bloqueio e a outra são as infinitas formas de boicote para minar sua resistência e segurança impetradas pela nação títere norte americana.
Sobre o bloqueio basta uma simples pergunta. Por que o direito internacional não proíbe que os EE UU exerçam o privilégio de querer isolar Cuba do resto do mundo?
Por que seus direitos de nação soberana são negados? Sabemos que em todos esses anos o bloqueio isolou a Ilha do resto do mundo dificultando seu desenvolvimento e aperfeiçoamento autônomo. Então concluímos: E como Cuba mesmo isolada, conseguiu tantas vitórias e conquistas? É evidente que Cuba contou nas três primeiras décadas com o apoio decisivo da União Soviética, mas, e depois …
Voltando a Fidel ele diz que após a queda da URSS muitos também previram a derrubada da revolução cubana. “Na verdade, o país sofreu um golpe “anonadante”, ou seja, drástico de tão violento, quando inesperadamente de um dia prá outro caiu a grande potência e nos deixaram sós, sozinhos e perdemos todos os mercados para o açúcar, deixamos de receber víveres, combustíveis e até madeira. Ficamos sem matérias primas, sem alimento, sem higiene, sem nada. Nossos mercados e fontes de rendas fundamentais desapareceram abruptamente. O consumo de calorias e proteínas se reduziram a quase a metade. Mas o país resistiu e avançou consideravelmente no campo social. E hoje já recuperou grande parte de suas necessidades nutricionais e avança aceleradamente em outros campos. Apesar dessas condições negativas, através da consciência criada durante anos e da obra que viemos realizando foi produzido o milagre. Por que resistimos? Porque a Revolução contou sempre, conta e contará com o apoio do povo, um povo inteligente, cada vez mais unido, mais culto e combativo.” (Fidel Castro em conversa com Romanet). Agora atualmente com o sequestro do Presidente Maduro da Venezuela pelos americanos cessou o envio de petróleo para Cuba e isso afeta sobremaneira a produção das termas- elétricas e consequentemente a Ilha caiu num buraco negro com todas as suas consequências de só possuir energia elétrica apenas 5 h por dia.
E quais as outras conspirações, sabotagens, terrorismo e boicotes que Cuba é vítima sistematicamente? São inúmeras que implicariam um Livro só com o tema. Mas, algumas me chamaram a atenção pela constância e até diria originalidade da armadilha como a Operação Peter Pan. Mais prefiro começar pelas respostas de Fidel à Romanet: “Desde o triunfo da Revolução começaram as sabotagens, a infiltração de homens, de apetrechos de guerra para promover atividades terroristas. Nosso país tem sido objeto da mais prolongada guerra econômica da história e de uma incessante campanha de terrorismo que dura cerca de ½ século. Começaram com o envio de aviões que bombardearam com materiais de incêndio as plantações de cana… Sequestraram nossos aviões e os levaram aos EE UU e muitos foram destruídos. Ataques piratas ao nosso litoral, à nossos barcos pesqueiros, a transportes que chegam à Cuba. Mataram nossos diplomatas, companheiros das Nações Unidas, donos de jornais como fazem na Venezuela contra Chaves. Disseminam grupos armados que assassinam camponeses, operários, professores e alfabetizadores, queimam casas, destroem centros agrícolas e industriais. Nossos portos e depósitos de mercadorias e pesqueiros são objetos de frequentes ataques, Antes da invasão de Playa Girón a CIA chegou a criar mais de 300 organizações terroristas e depois da operação que não logrou sucesso houve um total de 717 ataques sérios contra nossos equipamentos industriais. Tudo isso causou a morte de 234 pessoas. As tentativas terroristas provocaram mais de 3 500 mortes e mais de 2000 mutilados. Cuba é um dos países do mundo que mais tem enfrentado o terrorismo.” (Palavras de Fidel) e Ramonet pergunta sobre a guerra biológica sofrida pelo país. Fidel responde que: “Durante a presidência de Nixon segundo uma fonte da CIA foi introduzido em Cuba um elemento que transmitiria o vírus da peste porcina. E tivemos de sacrificar mais de meio milhão de porcos. Esse vírus de origem africana era completamente desconhecido na Ilha. E depois tivemos algo pior, ou seja, o vírus tipo 2 da Dengue que produziu febre hemorrágica mortal para o ser humano. Esse vírus era absolutamente desconhecido no mundo e havia sido criado em laboratório. Um dirigente da organização terrorista Omega 7 reconheceu em 1984 que eles haviam introduzido o vírus em Cuba com a intenção de causar um maior número possível de vítimas. E Fidel também comenta que mais tarde ocorrem ataques de outros tipos que ele qualifica de biológico. Por exemplo diz, um parasito chamado “Moho Azul” atacou nossas plantações de tabaco e em seguida um “hongo” desconhecido destruiu nossa melhor variedade de cana de açúcar chamado Barbados 4362. Foi perdido nessa época 90 % da colheita uma coisa que nunca tinha ocorrido antes. E o mesmo se passou com o café e outras plantações também se infestaram com uma praga chamada “Thrips Palmi” em plantações de batatas e muitas outras provocando grandes prejuízos na nossa agricultura. É muito difícil demonstrar que essas calamidades não sejam fruto de uma causalidade e sim de uma intencionalidade maléfica com o objetivo de nos desestabilizar. Nesse momento Fidel conclui: Isso sem falar nos atentados que sofri. Ramonet pergunta admirado: “Atentados contra você”? e Fidel fala depois dos atentados pessoais que sofreu inúmeras vezes. Foram dezenas de planos e tentativas, alguns estiveram muito próximos de serem bem-sucedidos. No total elencou 600 planos bem-organizados, outros incipientes, ou seja, em diferentes graus. Sem maiores delongas só vou citar em uma Cafeteria do Hotel Havana Livre o plano era colocar uma pastilha de cianureto em uma batida de chocolate que Fidel iria tomar. Por sorte houve um congelamento no momento em que ia ser colocado. Em outro atentado pensaram em utilizar um agente químico que produzia efeitos similares ao do LSD para infectar o ar de um estúdio de televisão onde iria falar. E outra ainda, colocaram um veneno letal numa caixa de cigarros que ele iria fumar. Estou me lembrando de haver assistido um documentário sobre as tentativas frustradas de assassinarem Fidel Castro e que por inúmeras razões não se realizaram.
Voltando agora a comentar sobre a operação PETER PAN que tinha a intenção de desestabilizar o Governo Cubano com notícias hoje conhecida como “fake news” e na época logravam criar subjetivamente o medo e a insegurança principalmente em parte da população sem espírito crítico e mais suscetível a embarcar em canoa furada. A operação Peter Pan de consequências funestas teve exatamente essa abordagem. Havia uma Rádio americana chamada “Rádio Swan” situada nas Ilhas Swan próximas a Cuba que começou a propagar um projeto de lei sob a Pátria Potestad. Segundo esse documento o governo cubano retiraria dos pais a autoridade sobre os filhos, que passariam praticamente à tutela do Estado. De repente, aproveitando a chegada de um navio russo na região a rádio coloca no ar a notícia de que as crianças cubanas iriam ser enviadas nos próximos dias para Moscou onde seriam mortas e transformadas em carne enlatada. De repente essa notícia provocou tanta instabilidade que em tempo recorde os pais se mobilizaram e enviaram sem nenhum controle e ou certeza 14 mil crianças para os Estados Unidos. Fidel nas conversas com Ramonet quando fala na revolução que se operou em Cuba, mas sem desrespeitar princípios e crenças de seu povo. Por isso, nenhum sacerdote cubano foi punido ou desrespeitado e essa política faz parte de uma concepção não só de princípios éticos como também políticos. Entretanto interessava aos EE UU representá-la como uma revolução antirreligiosa, a partir dos conflitos que se produziram nos primeiros anos e que nos obrigaram a algumas medidas. Alí começa a conspiração e a ocorrer coisas muito duras e um bom exemplo foi a operação Peter Pan um verdadeiro sequestro de 14 mil crianças desse país com a conivência dos pais, depois que os nossos adversários inventaram a atroz calúnia de que iríamos retirar o pátrio poder das famílias. Quando se trata de coisas que tem a ver com o sentimento de paternidade, as pessoas enlouquecem, e se enganam facilmente. Assustou muita gente e isso acabou facilitando aquele êxodo de envio clandestino. E assim muitas famílias se separaram para sempre. E Fidel confirma o alvoroço que foi a propagação da ideia de que as crianças virariam carne enlatada e essa carne voltaria para Cuba. Apesar disso ser uma mera fantasia não se pode ignorar que as pessoas não acreditassem. Isso porque a mentira está associada a um instinto tão poderoso paterno/ materno e daí porque enviaram os filhos. Ramonet pergunta se foi um envio clandestino, mas Fidel argumenta que os cubanos foram permitidos de viajar para os EE UU e que na época não havia muitos requisitos de tramitação. Os pais quiseram enviar os filhos julgando que cedo, cedo iriam encontrá-los. E isso não aconteceu. O desenrolar da operação Peter Pan é de um desfecho que reputo trágico pois muitos jovens foram violados ou violentados ou semi-escravizadas, etc. Penso que Fidel deveria ter sido naquele momento autoritário e não ter permitido a escolha arbitrária de pais ignorantes ou oportunistas.
Para concluir não posso deixar de me referir ao papel cubano na ajuda a África a se livrar do nefasto colonialismo. Qual país do mundo se ofereceu para lutar voluntariamente pela libertação de um país do julgo colonial? Só conheço Cuba.
Seu mais importante trabalho foi em Angola. Quantos participaram dessa longa guerra em Angola pergunta Ramonet à Fidel Castro? Fidel informa terem sido mais de 300 mil combatentes internacionalistas e cerca de 50 mil colaboradores civis cubanos. Isso para um país de 10 milhões de pessoas representa 5% da sua população. E é bom que se saiba que a ajuda de Cuba a Angola ou qualquer outro país africano é feita através de voluntários. Voluntariamente cumpriram um dever internacionalista. Protagonizaram incontáveis atos de heroísmo, abnegação e humanismo de forma absolutamente voluntária. A proeza de Angola, a luta pela independência da Namíbia e contra o apartheid fascista da África do Sul fortaleceu muito o nosso povo e são um tesouro de extraordinário valor. Mesmo que haja quem diga que no total somam milhões de homens e mulheres que asseguram a retaguarda a partir de Cuba. Fidel recorda que quando a Espanha foi atacada pelos fascistas em 1936 para lá marcharam centenas de cubanos e quatro décadas depois o mesmo espírito de luta com a força agora multiplicada pela sua própria revolução, está aí em defesa do povo agredido pelos mesmos inimigos.
E para concluir Ramonet pergunta qual a lição ele tira da longa guerra de Angola?
E Fidel responde: a principal lição é que um povo capaz dessa proeza em ajuda a outros povos, o que não faria ao chegar o momento em que tenha de defender sua própria terra? Temos um eterno compromisso com nossos mortos gloriosos de levar a revolução adiante e ser sempre dignos dos seus exemplos. Como os cubanos de ontem e de hoje souberam combater e morrer com dignidade e em defesa da justiça; com os homens e mulheres que tanto contribuíram e nos demonstraram o valor da solidariedade. As atuais e futuras gerações de cubanos seguiremos adiante por maiores que sejam as dificuldades, lutando sem trégua para que a revolução continue tão invulnerável no terreno político quanto no terreno militar e também no econômico.
Enfrentaremos cada vez com maior energia nossas próprias deficiências e erros. Seguiremos lutando, resistindo, derrotando cada agressão imperialista, as mentiras da sua propaganda e as suas arteiras manobras políticas e diplomáticas. Continuaremos resistindo as consequências do bloqueio, que algum dia será derrotado pela dignidade dos cubanos, a solidariedade aos povos e também pela crescente oposição do povo norte americano a essa absurda política que viola flagrantemente seus direitos constitucionais.
Niterói, 16 de agosto de 2026.
- Livros Consultados: – “Cien Horas con Fidel” – Ramonet, Ignacio – Oficina de Publicaciones del Consejo de Estado- La Habana 2006.
- FIDEL, A HORA Y SIEMPRE – CEN AÑOS COM FIDEL 1926 – 2026.
Helena Reis
