Quando o fascismo bate à nossa porta

Sábado, 27 de outubro, véspera da Eleição mais tensa da nossa história recente. Procuro um Livro para ler e amenizar minha ansiedade à flor da pele. Por acaso, ou não, tiro da estante um livro, há mais de dois anos comprado, o qual nunca me dera ao trabalho de folhear: “O TRAUMA ALEMÃO” de Gitta Sereny. A autora escreve sobre a Alemanha da 2ª metade do século XX , num exame da culpa, das negativas e das decepções que, de muitas e diferentes formas os nazistas deixaram em seu rastro. Seu grande interesse, ela diz “é saber por que os seres humanos são levados amiúde e tão prontamente, a abraçar a violência a amoralidade e sucumbir ao imperativo do mal enquanto outros conseguem resistir. Como uma tirania tem a capacidade de perverter os instintos humanos?

Sim pensei, porque houve uma escolha e nada inocente do povo alemão apesar do seu alto nível cultural e social. Nenhuma justificativa como as frustrações pela fase de decadência que viviam, pode explicar a cegueira coletiva que toda a nação embarcou naquele momento. E essa opção foi responsável por mergulhar não só a Europa, mas o mundo inteiro numa tragédia sem precedentes. O espírito mortífero da guerra foi incutido e se alastrou por toda a sociedade. Gitta analisa pari passo como o exército germânico de ocupação durante a guerra pode mostrar uma postura diferenciada quer se tratasse dos países do oeste como a França com formas mais brandas ou do Leste onde o inimigo era tratado com muito mais truculência a exemplo do que fizeram com os judeus, ciganos, comunistas e extensivo ainda a milhões de cristãos poloneses, ucranianos e soviéticos assassinados sem razões plausíveis. Há que delimitar a diferença entre “crimes de guerra” e “crimes nazistas”, este últimos desvinculados da guerra e cometidos, de modo geral, contra civis inocentes como através do “programa de eutanásia” – com a matança de doentes mentais e deficientes físicos. O que muitos ignoram eram os planos nazistas por ex. para a Polônia conquistada em duas semanas de luta, de acordo com o discurso de Himmler: “Ao longo dos próximos 10 anos, a população da Polônia ocupada se tornará uma raça eternamente inferior e nos servirá para o trabalho escravo”. Outro projeto secreto e terrível de sua autoria era chamado de ‘LEBENSBORN”. Todas as crianças entre 2 e 6 anos, de valor racial, ou seja, com “aparência nórdica”, com ou sem o consentimento das famílias começaram a ser levadas para instituições de reeducação na Alemanha e repassadas para os “SS” com o intuito de serem germanizadas. Essas crianças foram vítimas da política racial que eliminava o contato com as mães e sem seus cuidados afetivos muitas adoeciam ou viravam autistas. Enfim, a Lebensborn contabilizou no rapto e na germanização cerca de um quarto de milhão de crianças da Europa Oriental. Sereny no pós guerra trabalhou em Instituições de resgate das crianças raptadas conseguindo recuperar 40.000 delas. Se somarmos a essas atrocidades mais os 6 milhões de judeus mortos em campos de concentração, mais cinco milhões de civis soviético, mais dois milhões de poloneses – incluindo grande parte do melhor de sua intelligentsia – e outro milhão de pessoas: Ciganos, livres pensadores alemães, dissidentes, transexuais ou alemães com problemas mentais e deficiências físicas. A soma numérica dá um total de 14 milhões de seres dizimados em holocausto e isso dentro de um primitivismo insano de classificar os seres humanos em superiores e inferiores.

A pergunta que não quer calar: Como os alemães chegaram a esse ponto. Como Hitler conseguiu enfeitiçar o seu povo provocando uma cegueira coletiva e mais do que isso, uma certeza e empolgação em seguir alguém com propostas de violência contra todos e contra tudo, um “salvador da pátria” com postura assassina e discriminatória. Assinaram um cheque em branco quanto ao seu destino de Nação e de povo.  Que poder de manipulação Hitler possuía, capaz de turvar a consciência até daqueles incumbidos na linha de frente em perpetrar pessoalmente crimes hediondos. Num julgamento entre as centenas que ocorreram nos tribunais alemães nas várias décadas do pós guerra, um caso dos “mais banais”, praticamente ignorado, revela o seguinte: “O juiz Herr” relata o crime ao acusado Johann R que durante o processo de dizimação do gueto da cidade, capturou cerca de 60 crianças com menos de 10 anos de idade e que haviam tentado se esconder …  de as ter posto de pé à beira de uma vala e de as ter matado uma por uma com repetidos golpes de martelo na cabeça, com o que seus corpos iam caindo na vala, enquanto seus pais eram forçados a assistir tudo aquilo. Resposta de Johann: “Meu desejo é fazer tudo para ajudar o tribunal, mas tudo isso foi há muito tempo..” E mais adiante: “Seja lá o que tenha sido feito, o que nós fizemos, todos nós, qualquer um de nós, nós o fizemos para cumprir ordens.“ Sereny também revela no seu Livro que mesmo tendo se passado várias décadas a antiga geração que corroborou para a instalação do nazismo não consegue dar explicações plausíveis para as novas gerações. Por mais que escritores, cineastas, teatrólogos, psicanalistas tentem fazer um diagnóstico que classifique o tipo de insanidade de uma geração, há ainda uma cortina de fumaça e explicações mal dadas para o abissal problema.

Sereny também sai em busca de explicações a nível do individual, ou seja, perscrutando a alma dos personagens que tiveram um protagonismo na época. Tudo em vão, quero crer (1).

E pensando no Brasil: Queremos de livre e espontânea vontade escolher como presidente um cara cujo herói é um personagem também abominável e tenebroso da nossa história – o ultra torturador Ustra, capaz de aberrações semelhantes, com métodos perversos de torturar mulheres e na presença de seus filhos. Percebem a analogia! Só um fato deste, num país civilizado seria motivo para impugnar uma candidatura. A história do seu ultra herói virou seu Livro de cabeceira e aí declara a alto e bom som que o erro da ditadura brasileira foi ter apenas torturado quando deveria ter exterminado pelo menos umas 30 000 pessoas. E a forma debochada como enche a boca ao falar do seu herói como se isso fosse o seu maior troféu olímpico. E nós ao referendá-lo estaríamos cumprindo ordens? De quem? Quem fabricou o mito? Que interesses estão por traz dessa criação macabra.

Tal como na Alemanha, hoje no Brasil a maioria, a qual não sei porque, muitos insistem em classificar de minoria, está tão ameaçada como estiveram os poloneses, os ciganos, os eslovacos, os comunistas russos e húngaros.  Sobre os negros, os primeiros da lista, vão ser ceifados, exterminados melhor dizendo, caçados à tiros muito mais do que já acontece. E provavelmente perderão a oportunidade tão rara de ascender na escala social conseguindo, através de grande esforço, vaga na Universidade pública. O candidato já declarou com voz de indignação e a alto e bom som ser contra as cotas em universidades, e por ‘cause” é também contrário à demarcação de quilombos. Trata os quilombolas aliás, com desprezo na voz e diz como chacota que pesam mais de 7 arrobas. Será que ele sabe o peso de uma arroba e numa frase de efeito ao discursar numa plateia de “alto nível” diz que “esses negros não servem nem para procriar”. E todos aplaudem achando a piada hilária.  Qual a graça eu perguntaria?  Ele é candidato à Presidência ou à Palhaço de Circo? Em relação às tribos indígenas, diz que possuem terras em demasia e que isso atrai outros países, e também que o Brasil tem florestas demais, declaração muito ambígua. Hoje na última aparição na TV recebeu um séquito de fazendeiros do agronegócio. Na véspera uma bela índia representando uma tribo do Amazonas posou a seu lado e ele, fazendo a demagogia inversa, garantiu sem muita convicção que irá protegê-los. Mas não especifica como pretende fazer, e nem se retrata ou volta atrás da declaração de ser contra a demarcação das terras indígenas. E no discurso das frases desalinhavadas, deixa entender que podemos liquidar hectares de floresta para plantar soja ou seja o que for. Se alguma coisa do que diz, repercute mal na mídia, desdiz rapidamente, deixando a impressão de que não tem ideia formada e elaborada sobre os temas, mesmo os mais relevantes e, mudará de ideia levianamente, a qualquer momento, dependendo das circunstâncias e dos interesses. Entretanto, deixa claro como água cristalina, mesmo falando aos sopetões, com truculência na voz, declarações ameaçadoras: “não vou permitir ações do MST” e “vou reprimir nas Universidades esta gentalha de esquerda comunista”. Não vou admitir esse perigo comunista, reitera vociferando! Foi o que ouvi na noite de hoje, no Jornal Nacional. Que perigo é esse eu gostaria de saber? Assim que vencer vai começar a censura? Vai acabar com a liberdade de expressão? Vai prender, vai torturar, vai exterminar? Só falta dizer: depois não digam que não avisei. O mais cômico, se não fosse sério, é que tem sempre ao lado, ultimamente, um negro que mais parece importado da África com uma linda pele retinta e reluzente. Com isso quer deixar claro, sem trocadilho, que gosta sim de negros, tanto assim que mantém um assessor – cola, sempre vestido com uma camisa – propaganda. De forma subliminar está passando para os brasileiros menos atentos, o seu apreço pela raça negra, que não a discrimina, pelo contrário, que essa ideia é mentirosa. Deve pretender com isso, “apagar” declarações racistas e manchetes de jornal, quando, por exemplo, em resposta a uma repórter, diz que seus filhos foram muito bem criados e não iriam se casar com uma negra. A saia justa das últimas semanas foi  a declaração de um dos seus Bolsomitos dizendo ser muito fácil fechar o STF e bastaria um cabo e um soldado. A notícia soou como bomba, mas, de repente a figura do pai rígido, durão que mantém os filhos no cabresto, se travestiu de genitor abobado, cheio de beneplácito com o filhinho tão jovem, que gracinha, só cometeu um pequeno excesso, mas se arrependeu em seguida, já se desculpou e agora é encerrar o assunto, na verdade de forma evasiva tentou enquadrar as palavras do filhote no rótulo de “mera forma de expressão”.

Como Deputado Federal votou contra um projeto que beneficiava os deficientes físicos pois não é que hoje, último dia da campanha, sua digníssima esposa que nunca abria a boca, no dizer do próprio marido, revelou em 1ª mão que como 1ª dama irá fazer um trabalho em prol dos deficientes. Fico me perguntando que farsa é essa que tantos brasileiros resolveram endossar. Quando você traz à tona uma de suas inúmeras pérolas para algum admirador dele a pessoa diz não ser verdade e sim uma brincadeirinha, leveza do candidato. Vai pegar pesado assim companheiros, mas, em outro planeta. A sensação que me dá é que o Brasil virou não um palanque, mas um teatro onde o ator principal não decorou seu script e cada vez que deve repeti-lo cai em contradição e muda o texto.

Tal como na Alemanha os brasileiros pensam que acharam um salvador da pátria. Ele vai nos salvar de que? Seu plano ou antiplano de Governo se resume a dois tópicos; acabar com a violência e acabar com a corrupção.  Para acabar com a violência quer diminuir a idade civil, autorizar o porte de arma a partir dos 18 anos e deixar a cargo da população fazer justiça com as próprias mãos. Hoje mesmo, assistimos no Jornal da Cultura a chacina realizada por um cara antissemita num Templo Judaico nos USA onde o porte de arma é legalizado. E aqui no Brasil, vamos liberar armas para resolver o problema da violência. É ingenuidade ou má fé? Fico com a última hipótese uma vez que ele é sócio de Empresas que vendem armamentos. Aliás, mesmo ilegal ainda, o setor já explodiu no último mês, na comercialização de armas.  Essa ação ou projeto, parte de um cristão que vive com a bíblia na mão e fazendo propaganda de sua fé. Seria fé de menos ou fé demais!

Quando fala em corrupção ele chega a fechar os olhinhos para mirar nos corruptos de plantão. Parece saborear a devassa que vai fazer Brasil afora. Entretanto declara que vai privatizar todas as Empresas que nos restam. Disse que não será a preço de banana. Querem apostar que isso vai ser mais uma bravata. Só não ponho em dúvida que vá tentar rifar o Brasil a preço vil, mesmo posando de patriota mas, em ato falho, presta continência à bandeira americana.

A minha lista seria infindável contudo, antes de terminar gostaria de levantar a lebre de quem é o Paulo Guedes o tal Ministro da Fazenda. Já que o bossal Bolsonaro que nada entende de economia e não tem preparo suficiente para levar o Brasil a sair da condição colonial de país exportador de commodities, diz que traz à tiracolo quem tudo sabe e que tudo irá resolver em seu nome nomeando-o seu Posto Ipiranga. Como interpretar essa lenga lenda: “nós damos carta branca a um lunático” e ”ele dá carta branca a um economista de quarta categoria” que diz já se achar o próprio Presidente. Então, amanhã estaremos elegendo o desconhecido Paulo Guedes que vai nos dirigir rumo ao precipício.

Vamos daqui para frente investigá-lo. Já sabemos de antemão que ele aprendeu a ler na cartilha do neoliberalismo ou seja, irá privilegiar tudo que se refira ao mercado de capitais em outras palavras ao capital financeiro. Irá propor todas as reformas que o Temer não conseguiu fazer passar e sempre em detrimento da classe trabalhadora. Aliás ele transita entre os fundos de pensão!!!

A Procuradoria da República no DF abriu investigação contra esse guru das finanças. A operação tem o nome de Greenfield, ou seja, campo verde. Deduzo que seja uma clara alusão à expressão: “Choveu na sua horta”. Ele também é investigado pelo MPF por CRIME DE GESTÃO TEMERÁRIA OU FRAUDULENTA de investimentos de recursos de fundos de pensão. Durante o processo, outras coisitas, leia-se novas fraudes, emergiram do lodaçal!

O que existe de errado? Pagamento de propina em Fundos de Pensão. Ao longo de 6 anos o economista captou no mínimo um bilhão de reais de fundos como a PREVI, a PETROS, FUNCEP, POSTALIS e BNDERPar, respectivamente do B. Brasil, Petrobrás, Caixa, Correios, BNDs. Os negócios foram feitos pela empresa de Guedes a BR Educacional Gestora de Fundos. Só o nome já levanta suspeita pois, tudo que uma gestora de fundos não faz é se preocupar com a Educação no país. Muito antes, pelo contrário. E, no entanto há uma investigação sobre um curioso fato entre 2009 e 2013 quando sua empresa obteve 400 milhões de reais para projetos educacionais. Para bom entendedor pingo é letra. Mas vamos aguardar e fiscalizar para saber se depois das Eleições, as investigações continuarão com a mesma liberdade de ação e nenhum Órgão será ameaçado de fechamento por um soldado e um cabo.

(1) Sereny, Gitta – O Trauma Alemão –Experiências e Reflexões 1938 a 2000 – Bertrand Brasil

Rio, 27 de outubro de 2018.

Helena Reis