O Programa Falou e Disse recebe Jorge Ney Fernandes.

Jorge Ney Fernandes foi diplomata de carreira no Ministério das Relações Exteriores mais conhecido como Itamaraty. Sua trajetória foi muito rica em todos os aspectos não só porque pode entrar em contato com diversos países em diferentes continentes, como foi grande observador e analista do que se passava à sua volta. Sua trajetória em cargos de alta responsabilidade começa em 1979 na América Central – Guatemala, onde permanece por 3 anos (1979 a 82) e de lá para a América do Sul – o Uruguai por mais 3 anos. E de repente, lá está ele em (Bucareste) – Romênia em 1986, país da Europa ainda integrado à URSS e que, só deixou de existir em 1991. Portanto pode assistir por um ano, essa fase de transição das 15 Repúblicas que formavam o bloco Oriental Soviético, voltando a se constituir em países autônomos. Concomitantemente também representou o Brasil no Vaticano por dois períodos. Já quase no início de nosso século XXI (98)e algum tempo depois. No ano 2000, é enviado ao Chile e depois Havana (Cuba). Após esse giro e acúmulo de conhecimento foi buscar na África nossas profundas raízes. E o país ofertado é o Zimbábue e em Harare é o Embaixador, e também o encarregado dos Negócios. Outras mudanças em curto espaço de tempo ocorrem com a sua ida para a Líbia, país do leste africano governado por MUAMMAR GADDAFI. Na Líbia foi um período de intensos movimentos e mudanças políticas que culminaram com a assassinato do líder já citado. Ney vai se deter nessa fase da história do país, que merece ser melhor compreendido e reestudado por nós brasileiros em suas nuances, superando a superficialidade do nosso conhecimento. Na 2a década do século XXI último período desse trabalho de quase 40 anos de idas e vindas vai fechar com Chave de Ouro o seu trabalho de Embaixador, dessa vez indo para o Continente Asiático – as Filipinas exatamente e, lá se estabelece por alguns anos. O somatório de todos esses trabalhos e deslocamentos só podem ser narrados em série e, é isso que pretendemos fazer. É importante frisar o reconhecimento do seu trabalho pelo ITAMARATY que não mede palavras para realçar o destemor e coragem com que enfrentou eventos extremamente marcantes e que teremos oportunidade de saber. O Embaixador recebeu reconhecimento público de nossa Chancelaria por sua bravura em permanecer em Trípoli mesmo durante os bombardeios da OTAN, quando outras representações diplomáticas haviam sido evacuadas. Assim ficou conhecido como ” Quintessência do diplomata” por sua postura de neutralidade, diálogo e resistência em meio ao conflito. Outro ponto foi relativo aos seus esforços em preservar a Embaixada Brasileira incluindo seus documentos e garantindo proteção aos brasileiros que moravam na região.

Vamos ver também o outro lado de Ney Fernandes. Ele é também professor, tem bacharelato e licenciatura em língua e literatura portuguesa e Mestrado em Literatura Hispano-americana. Foi professor no CEB de Santiago e na Universidade do Chile. Como embaixador, ademais, abriu cursos de português e literatura brasileira na África (Zimbábue e Líbia) e em Cuba. Promoveu festivais culturais em Roma e nas Filipinas.

E seu trabalho como difusor da língua e cultura brasileira não foi deixado de lado quando terminou o seu trabalho no Itamaraty. Radicado atualmente no Uruguai, hoje oferece e de graça para aqueles que já dominam o idioma, aos sábados, de 10h às 12h, com duração de um ano, o Curso “Panorama da Cultura Brasileira” muito abrangente pois trata de geografia e história do Brasil em sua sinergia com os movimentos artísticos da literatura, música, pintura, escultura, arquitetura, cinema. Começa com o pensamento dos povos originários, no que nos foi legado por Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Após breve passagem pelo Classicismo vigente na cultura do colonizador português, aborda o Barroco, Arcadismo, Romantismo, Realismo/Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e os “ismos” de fim do século XIX que vão desaguar na Semana de Arte Moderna de 1922. Conclui com a análise da arte moderna e contemporânea no Brasil, até os extremos da literatura sem palavras e os fenômenos mais radicais da música atual, como o Hemicida.

É pouco ou quer mais? Um Embaixador que ao invés de se preocupar com sua vida social em altas rodas, tem a preocupação em cada país que vai, de divulgar e preservar a cultura do país que representa é digno de aplausos. E vamos dar destaque: ao divulgar e ensinar o português não se limita a um ensino formal, mas aproveita o enseja para um mergulho desde a nossa cultura primitiva indo até a nossa modernidade. Daí porque suas histórias ganham relevo e atualidade cada dia que passa.

Niterói, 14 de julho de 2025

Helena Reis