O Programa Falou e Disse recebe Heitor Silva.
George Soros nasceu em Budapest na Hungria em 1930. Com 17 anos foi morar na Inglaterra e concluiu seus estudos na London School of Economics e neste período sofreu grande influência da obra de Karl Popper, autor da ideia “de sociedade aberta”. Com 26 anos foi viver nos EUA e, a partir daí começa a acumular uma fortuna que causa admiração no mundo todo, inicialmente através de um Fundo de investimento internacional que ele mesmo criou e geriu. Tornou-se um dos maiores especuladores mundiais. Ele simboliza a passagem do capitalismo industrial clássico para o capitalismo financeiro planetário: é o momento em que a circulação de capitais se faz de forma instantânea, em que as moedas são tratadas como ativos de guerras econômicas. Seu sucesso ajudou a consolidar a imagem dos “Hedge Funds” como força capaz de influenciar economias inteiras e isso porque eles não são apenas um fundo de investimento, mas funciona como uma espécie de máquina de guerra financeira que pode atuar em vários países ao mesmo tempo movimentando bilhões e com uma aguda percepção das fragilidades do mercado e tirando com isso imensas vantagens. Como exemplo podemos citar o que ocorreu com a libra em 1992. Soros percebeu que o Reino Unido mantinha artificialmente a libra valorizada dentro do sistema europeu e fez uma aposta pesada na sua desvalorização. O Banco da Inglaterra queimou bilhões tentando segurar a libra, mas perdeu. Após essa operação contra a libra, Soros ficou mundialmente conhecido como “o homem que quebrou o Banco da Inglaterra”. A expressão virou quase um mito do capitalismo financeiro moderno. Com toda a força do Banco Inglês o Reino Unido foi obrigado a retirar a libra do sistema cambial europeu. O episódio foi impactante pelo simbolismo de algo novo na história de um grande especulador privado derrotando um dos bancos centrais mais tradicionais. Soros criou sua 1ª Fundação o Open Society Funds em Nova York em 1979 uma das maiores redes filantrópicas do mundo. E por aí foi… O que me motivou a querer discutir sobre uma pessoa tão polêmica e contraditória para muita gente? Eu e meu amigo economista Heitor Silva vemos nessa dualidade a ponta do iceberg para desnudar a ambivalência atual da nossa sociedade. Um dos Livros publicados por Soros “A CRISE DO CAPITALISMO GLOBAL” nos traz muitas pistas e afina a nossa visão crítica sobre ideias autoritárias, herméticas incapazes de sofrer mudanças ao longo do tempo. E por isso, gosto sempre de citar uma frase de Marx em que dizia não ser marxista querendo deixar claro com isso que ele próprio não admitia uma doutrina sem possibilidade de ser modificada ou ultrapassada ao longo do tempo. Voltando a Soros, como uma pessoa que eu vejo ser o protótipo do capitalismo pois acumulou uma fortuna e descobriu meios de aumentá-la cada vez mais, possa ser crítico desse modelo que tanto o favoreceu? E aí fiquei pensando quais seriam os seus argumentos mais pertinentes e porque quer desnudar suas reflexões? E daí concluí existe melhor conhecimento e discernimento de um problema do que quando ele perpassa o nosso quotidiano e nos traz experiência como a forma concreta do saber? E Soros na verdade representa a contradição típica do capitalismo moderno. Ao viver mergulhado no mundo financeiro, conhece profundamente as fragilidades do sistema e, mesmo avaliando os benefícios que angariou vivendo em suas entranhas, sabe perfeitamente que tudo tem 2 pesos e 2 medidas. Pari e passo às conquistas pode pressentir melhor que ninguém quais as consequências futuras desse sistema. Soros não é um “anticapitalista” ele continua a defender a economia de mercado. O que critica é o capitalismo financeiro desigual, especulativo e concentrador e que segundo ele pode destruir a própria democracia liberal que permitiu sua ascensão. Esse será um ponto fundamental na nossa discussão. No livro, em diversos trechos encontramos uma espécie de elemento comprovatório de que o ser humano na sua essência está sempre vivendo ou caindo em contradições. Vou citar por exemplo na pág. 47 (1) “É impossível pintar o retrato do mundo em que vivemos”. Em sentido literal, quando formamos uma imagem visual do mundo, temos um ponto cego onde o nervo óptico se liga ao sistema nervoso. A imagem que se forma no cérebro é uma réplica bastante boa do mundo exterior e conseguimos até preencher o ponto cego extrapolando do restante retrato, embora não consigamos ver de fato o que está no p. cego. Podemos considerar isso uma metáfora do problema com que nos defrontamos. Porém a metáfora ainda mais forte é o fato de eu depender de uma metáfora para explicar o problema. Com tanta complexidade temos de simplificar usando: generalizações, metáforas, analogias, comparações, dicotomias para introduzir alguma ordem num universo caótico. Mas cada construção mental distorce até certo ponto aquilo que representa, e cada distorção acrescenta algo ao mundo que precisamos compreender.” Em outra trecho ele nos dá outras dicas de suas contradições: “Os mercados raramente gratificam as expectativas subjetivas das pessoas; contudo o seu veredicto é suficiente real para promover angústia e perda. A realidade existe.” Por isso é que as religiões e as ideologias políticas dogmáticas exercem uma grande atração. A maneira como tentei extrair significado de uma realidade complexa e caótica foi pelo reconhecimento de minha própria falibilidade. E completa dizendo que caso exista uma originalidade no seu pensamento é a sua versão radical da falibilidade sobre a qual ele discorre como uma tese pessoal e até filosófica “. Quais as conclusões podemos tirar disso? Claro que tudo passa pelo critério da subjetividade e ao trazê-la à luz precisaríamos de usar as tais metáforas, fazer analogias etc.
Soros ao querer chegar ao cerne da questão faz a análise do atual sistema capitalista global caracterizada não só pelo comércio livre de bens e serviços, mas pelos movimentos livres de capitais. As taxas de juros, as taxas de câmbio e os preços dos títulos dos diversos países estão correlacionados, e os mercados financeiros globais exercem uma enorme influência na situação econômica. Ele acaba por falar que vivemos num sistema capitalista global com um gigantesco sistema de circulação que absorve o capital para os mercados e instituições financeiras centrais e depois os desloca para a periferia sob diferentes formas, seja sob a forma de crédito e carteiras de investimentos ou indiretamente através das multinacionais. Soros aponta logo em seguida as falhas desse sistema uma delas é a despreocupação em que o desenvolvimento dessa economia global seja realizado concomitantemente à sociedade global. Ao contrário, a relação entre o centro e a periferia é profundamente desigual. Não vamos nos esquecer que o Brasil é um país periférico. Outra crítica se relaciona aos defeitos dos mecanismos de mercado e aponta sobretudo às instabilidades do mercado financeiro internacional cuja repercussão não poupa ninguém. Também chama atenção às deficiências da política tanto nacional quanto internacional e a inexistência de um quadro político e regulamentador adequado. Aponta então um erro que chama de prevalecente: o fundamentalismo de mercado. Nesta análise ele acaba prevendo a desintegração iminente do sistema capital global. Bom, coincidência ou não, alguns anos depois ocorreu a mais sinistra crise do sistema financeiro mundial conhecida como a Crise do Sub-Prime de 2008, final da 1ª década do século XXI. Em resumo suas críticas foram: 1- A crença num mercado perfeito, infalível;2- fundamentalismo de mercado; 3- retirada da regulamentação do Estado; 4- financeirização extrema; 5- domínio especulativo da economia real. Olha a ironia: “Um homem que ganha bilhões especulando reconhece que o próprio sistema produz desigualdade, instabilidade e até profundas crises globais. Na sequência do livro podemos acompanhar de perto a crise que ocorreu em países da Ásia e particularmente a crise da Rússia em 1998 que resultou na desvalorização do Rublo onde foi ativo protagonista tentando evitá-la por todos os meios e formas.
(1) pag. 47 – Soros, George- “A Crise do Capitalismo Global” – A Sociedade Aberta Ameaçada – Perseu Books L.L,L, 1ª ed. março de 1998.
Na conversa outras questões irão entrar e futuramente vamos integrá-las ao texto.
Niterói, 16 de maio de 2026.
Helena Reis
