O Programa Falou e Disse recebe Jorge Antônio da Silva.

JORGE ANTÔNIO DA SILVA, o “CACÁ”, é engenheiro agrônomo, dirigente sindical e uma figura histórica da articulação socioambiental fluminense. Atua há décadas em defesa do meio ambiente, dos recursos hídricos, da agricultura sustentável e da participação popular nas políticas públicas do Estado. A partir de 2014 integrou a diretoria do SENGE. Coordenador do FEMAARJ (Fórum Estadual do Meio Ambiente e Agricultura do R.J, e integrante das articulações ligadas à CLEMAARJ (Conferência Livre Estadual de Meio Ambiente e Agricultura do Rio de Janeiro. No último domingo de maio dia 31, na Av. Atlântica em Copacabana liderou um grande ATO PÚBLICO E MARCHA AMBIENTAL que contou com a participação de cerca de 180 Entidades. Um dos objetivos foi marcar presença na abertura da Semana do Meio Ambiente e avaliar as conquistas da COP 30 em Belém. Nessa entrevista com Cacá queremos rever de forma crítica quais as medidas protetivas para o meio ambiente foram reforçadas no encontro em Belém e quais as lutas precisamos continuar a travar.

“A COP de Belém conseguiu reunir quase 200 países para falar do incêndio planetário. O problema é que muitos ainda não concordam em fechar a torneira do combustível que alimenta o fogo.”

Ato público na Av. Atlântica - 31/05/26
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Quais foram as grandes batalhas da COP 30. Vamos ver alguns pontos centrais o primeiro se refere ao financiamento climático. Os países pobres argumentam que não tem como enfrentar as secas, as enchentes, os incêndios e a transição energética sem recursos. O principal debate consequentemente foi como mobilizar cerca de US$ 1,3 trilhões por ano até 2035 para apoiar os países em desenvolvimento. E na sequência vamos ver com Cacá como os compromissos selados estão sendo cumpridos.  Um aspecto original da COP foi ter ocorrido pela 1ª vez no coração da Amazônia. A mensagem foi clara: sem proteger as florestas equatoriais e tropicais, especialmente a Amazônia, será praticamente impossível estabilizar o clima global. Mesmo que as emissões diminuam, parte do aquecimento já está previsto. Por isso enfatizaram investimentos em cidades, agricultura, recursos hídricos e infraestrutura capazes de resistir a enchentes, secas e ondas de calor. Este item é de suma importância, basta avaliarmos as tragédias recentes ocorridas principalmente no Rio Grande do Sul e as perdas correlatas. Qual o maior custo? o da reposição pós tragédia ou o da prevenção. Outro ponto se relaciona à justiça climática e neste item os países mais pobres e os povos indígenas é que a conta não recaia justamente sobre quem menos contribuiu para isso. Finalmente, um dos pontos positivos da COP foi tratar os Povos Indígenas como protagonistas dando enorme visibilidade a eles, que passaram a ser vistos não apenas como vítimas, mas como guardiões de conhecimentos fundamentais para a preservação dos ecossistemas. A COP mostrou que não basta discursar sobre o aquecimento global. O mundo terá de escolher entre investir trilhões para proteger a vida ou pagar um preço muito maior com secas, enchentes, incêndios e migrações em massa. A Amazônia não foi apenas um palco para a COP 30. Foi testemunha de um julgamento; o da capacidade da humanidade de salvar a si mesma. “A Amazônia foi transformada em sala de reuniões do planeta. Mas a pergunta continua sem resposta: quem terá coragem de enfrentar os interesses econômicos que lucram com a destruição do clima?” “Como salvar a floresta sem mudar a lógica do desenvolvimento que continua pressionando a própria floresta?” Será que nós transformamos promessas climáticas em dinheiro? Fracassos visíveis da COP apontados por ambientalistas, cientistas e até diversos Governos: Nenhum compromisso firme de abandonar petróleo, gás e carvão e isso apesar da Ciência afirmar que a queima de combustíveis fósseis é a principal causa do aquecimento global. O texto final não incluiu um cronograma obrigatório para a redução ou eliminação dessas fontes de energia. Muitos países produtores de petróleo bloquearam esse avanço, ou seja, “A COP discutiu a febre do planeta, mas evitou enfrentar a principal causa da doença e o seu tratamento adequado e eficaz. Enfim, seria injusto afirmar que houve muito discurso, mas na hora de garantir os recursos o dinheiro mingou? Falou-se em trilhões de dólares para a adaptação climática, mas continuou sem resposta clara a pergunta fundamental: Quem vai pagar? Quanto vai pagar? E Quando? Os países mais pobres reclamam que as promessas são maiores que os recursos efetivamente disponíveis. Quanto aos “Desmatamentos” parece que as metas não foram muito claras. E, embora a Amazônia fosse o centro das atenções não foi aprovado um compromisso internacional obrigatório para interromper e reverter o desmatamento, já! Sobre a meta 1,5º C parece que o mundo continua distante. A própria ONU reconheceu que as políticas atuais ainda apontam para um aquecimento muito superior ao limite considerado seguro. Antônio Guterres, chegou a classificar esse fracasso como uma “falha moral”. Para concluir parece que houve contradição no próprio processo de organização do evento. De um lado as lideranças discutindo a preservação da Amazônia enquanto de outro, obras de infraestrutura para a preparação da COP sem preocupação com os impactos ambientais incluindo até o desmatamento na região de Belém.

Niterói, 04 de junho de 2026.

Helena Reis