O Programa Falou e Disse recebe WaldecK Carneiro.

WALDECK CARNEIRO é professor titular da UFF (Universidade Federal Fluminense) atuando em diversas áreas; na Faculdade de Educação e no programa de Pós-Graduação em Educação. Coordena o Núcleo de Educação e Cidadania (NUEC), o grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Educação (GRUPPE) e o Observatório Fluminense de Políticas Sociais (OFPS) Doutor em Sociologia da Educação pela Sorbonne/Universidade de Paris. Trouxe seus conhecimentos acadêmicos para a política atuando em 5 mandatos parlamentares no nosso Estado, exercendo dois mandatos como deputado estadual entre 2015/2019 e 2019/2023. Sua atuação plural com múltiplos projetos em importantes áreas serão mencionadas no final, mas, quero dar ênfase e chamar atenção para um trabalho muito relegado e que constantemente cai no anonimato. Daí meu interesse, desde sempre, em focá-lo, jogar luz em cima. É verdade que acompanhei de perto esse período como membro da Auditoria Cidadã da Dívida Pública, indo frequentemente à ALERJ participar de plenárias sobre o tema. Foi uma das frentes mais densas, politicamente relevantes, tecnicamente contundente da atuação de Waldeck Carneiro num trabalho conjunto com Flávio Serafini. A dupla não poupou esforços e com ousadia e coragem investigaram fundo as causas do endividamento do Estado do Rio Janeiro e, especialmente do esquema envolvendo o Rio Previdência, a chamada “Operação Delaware”, onde Waldeck atuou como relator de uma CPI, presidida por Flávio Serafini que investigou operações financeiras feitas com royalties do petróleo e antecipação de receitas futuras. A CPI concluiu que houve gestão temerária e um aprofundamento artificial da crise fiscal do Estado. O relatório apontou prejuízos bilionários ao Rio Previdência; drenagem das receitas futuras do petróleo; contratos altamente favoráveis a investidores financeiros; crescimento explosivo da dívida pública; perda de controle sobre receitas estratégicas; transferência silenciosa de riqueza pública para o sistema financeiro.

Waldeck foi um dos parlamentares que mais insistiram na crítica ao chamado “Regime de Recuperação Fiscal” argumentando que o modelo apenas suspendia pagamentos temporariamente, enquanto os juros continuavam a crescer ampliando a dependência do estado diante da União e do sistema financeiro. Ele e Serafini sustentaram com veemência, que a crise do Rio não era apenas consequência da corrupção ou má gestão, mas também um modelo econômico baseado na antecipação predatória de receitas, na submissão aos interesses financeiros e ao enfraquecimento da capacidade soberana do Estado. Juntos com Martha Rocha, Eliomar Coelho e Renata Souza apresentaram projetos para impedir novas antecipações de royalties; reforçar juridicamente o patrimônio do Rio Previdência; recuperar receitas desviadas do fundo previdenciário e ampliar transparência e controle sobre operações financeiras do estado. Um dos projetos mais simbólicos buscava reincorporar ao Rio Previdência receitas que segundo a CPI, haviam sido retiradas do fundo ao longo dos governos anteriores, totalizando mais de R$10 bilhões em perdas. Essa atuação aproximou politicamente Waldeck e Serafini cuja tônica seguia uma linha crítica ao modelo de financeirização das contas públicas do Rio, defendendo: auditoria das dívidas; revisão dos contratos financeiros; recuperação da capacidade de investimento do Estado; proteção dos servidores e aposentados; soberania sobre os royalties do petróleo. Em muitos momentos a dupla tratou a crise fiscal do Rio não apenas como problema administrativo, mas como consequência de um modelo de endividamento predatório e subordinado aos interesses do mercado financeiro. Nesse ponto cabe a pergunta: Por que essa atuação tão importante por ser extremamente estratégica e técnica vindo em defesa da soberania do Estado é muito menos midiática do que outras pautas e, portanto, ninguém sabe, ninguém vê ou comenta? Claro, ir à raiz dos problemas não é nada fácil e a linguagem mantém uma explicação que se afasta da compreensão do comum dos mortais ou seja do povo não preparado de propósito para entender palavras cifradas tais como: “financeirização”, “securitização”, “regime fiscal”, “antecipação de royalties”, “fundos em Delaware”. Vou contar uma historinha para ver se traduzo com simplicidade esse enredo: Era uma vez um Estado chamado Rio de Janeiro.

Lá pelos anos de 2010 uma notícia parecia ter mudado o destino dos fluminenses: nas profundezas do oceano, sob uma grossa camada de sal, jorrava petróleo em abundância. Era o famoso pré-sal. A promessa era simples. Quando esse petróleo fosse extraído e vendido, parte do dinheiro retornaria para o Estado e alguns Municípios na forma dos chamados royalties. Era uma riqueza que chegaria aos poucos, ano após ano. Mas esperar nunca foi o forte de certos governantes. E aí residia o problema: os royalties viriam devagar. E eles queriam bilhões imediatamente. Foi então que apareceu uma turma de especialistas de mercado financeiro com uma proposta irresistível: – por que esperar o petróleo sair do fundo do mar se vocês podem gastar o dinheiro agora? Os olhos brilharam de cobiça. A solução apresentada ficava num lugar distante chamado Delaware, nos E.U.A., conhecido por suas facilidades para negócios financeiros daí a alcunha de paraíso fiscal. Lá foi montada uma estrutura que prometia transformar riqueza futura em dinheiro presente. O truque era simples de explicar e difícil de perceber. Em vez de esperar os royalties chegarem ao longo dos anos, passaram a vender pedaços dessa receita futura para investidores. Era como um pescador vender hoje os peixes que ainda não pescou. Os investidores entregavam dinheiro na hora, em troca recebiam o direito de receber uma parte dos royalties que viriam no futuro. A esse passe de mágica os especialistas deram o nome de securitização. Muito seguro mesmo, gastar hoje o dinheiro de amanhã na tradução clara do português. E assim, bilhões vieram à tona com a velocidade de um raio. O problema é que os compromissos também ficaram para o futuro. Quando os royalties continuaram chegando, uma parte deles já não pertencia mais ao povo fluminense. Tinha sido prometida aos compradores daqueles papéis financeiros. O dinheiro apareceu rápido e sumiu mais rápido ainda como acontece em tantas histórias do Rio. E enquanto Delaware prosperava como endereço da operação, muitos fluminenses continuavam perguntando: Afinal, se o petróleo era nosso, como fomos parar à deriva? Moral da história: quando a riqueza do futuro vira mercadoria financeira, o dinheiro chega antes, mas a conta também. E quase sempre fica para quem não participou da festa. Waldeck também teve excelente atuação na educação e no debate sobre políticas urbanas e sociais. Defendeu programas populares nas favelas; atuou no campo da habitação e da defesa da economia solidária e na área dos serviços públicos e infraestrutura. Essa 2ª parte apesar de serem sumamente importante não foram detalhadas dessa vez, para evitar a dispersão do ponto central da nossa abordagem.

Rio, 30 de maio de 2026.

Helena Reis