O Programa Falou e Disse recebe Silvio Tendler.

Nosso carioca Silvio Tendler é reconhecido como um dos melhores documentaristas brasileiros. Parte de sua extensa cinematografia com mais de 70 obras é dedicada a personagens que fizeram história em nosso país como Jango, Tancredo Neves, Marighella, Milton Santos, João Cândido, líder da Revolta da Chibata e cujo material foi destruído pela ditadura militar. Estudou o Cinema e sua História com graduação e mestrado em Paris nas Universidades Diderot e da famosa Sorbonne. Quando regressa ao Brasil lança em 1980 “Os anos JK- Uma Trajetória Política”. Esse foi o seu 1º longa e que obteve enorme repercussão e sucesso. Mas foi em “Jango”, onde aborda o golpe militar brasileiro, seu momento excepcional conseguindo agregar uma plateia de 1 milhão de espectadores. Tendler entretanto, não tem só a política como primazia, daí ter feito muito sucesso em 81 com 0 Mundo Mágico dos Trapalhões com 1,8 milhões de espectadores e, mais pra frente, realiza trabalhos voltados para a saúde pública com “Saúde tem Cura” e o “Veneno Está na Mesa” e também filmes que abordam o planeta, no seu processo de globalização. É dessa fase a realização de um trabalho considerado obra prima sobre os 50 anos da história global com o filme “Utopia e Barbárie.”  Claro está que Silvio Tendler é reconhecido nacionalmente e também fora de nossas fronteiras e nessa trajetória recebeu muitos prêmios e reconhecimento e como exemplo citamos a Medalha Pedro Ernesto (RJ) Medalha Juscelino Kubitschek, Ordem do Rio Branco, Medalha Tiradentes e fora do Brasil o Prêmio Salvador Allende (Trieste) e homenagens em Paris.

E por que escolhemos o “DEDO NA FERIDA” como uma cinematografia importante para a compreensão política do nosso sistema internacional? Por ela nos mostrar com clareza o que o neoliberalismo nos empurra goela abaixo através do sistema financeiro, hoje chamado de “rentismo”. O Cinema de Sílvio Tendler, ao nos premiar com uma obra importante como “DEDO NA FERIDA”, oferece para nós espectadores, uma aula magna de economia, com reforço de imagens e narrativas semelhantes ao quotidiano de milhões de brasileiros. E assim enfatiza e desnuda a realidade planetária de hoje.

Com maestria consegue escolher e trazer à cena uma infinidade de protagonistas tanto estrangeiros de grande projeção internacional, como brasileiros do mesmo padrão de qualidade. No time internacional vamos entrar em contato com dois gregos: O Cineasta Costa Gravas e Yanis Varoufakis que foi Ministro das Finanças na Grécia durante o Governo de ALEXIS TSIPRAS do partido (SYRIZA) quando se tentou salvar a Grécia das mãos da Troika formada pela Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu. Varoufakis tentou renegociar a dívida da Grécia inutilmente. Ele declara: “O capital financeiro, tira das populações o direito de definir as rotas de seus países porque estas, já estão definidas à priori, pelas relações econômicas”, “A Grécia não é dos gregos, é dos bancos”. Ele diz que o modelo de jogar todos os custos sobre os ombros dos mais fracos é responsável pelo reerguimento das fronteiras, das cercas, do nacionalismo, da misantropia e do racismo. “A democracia não pode ser autorizada a mudar a política econômica”. Veja algumas das situações que viveu: em uma reunião com o ministro das finanças alemão, Varoufakis fala: “Olha, eu vou querer renegociar os termos do endividamento porque a gente não tem como pagar e, na verdade até por conta de desses termos atuais. A gente quer renegociar isso aqui. Resposta do ministro da Alemanha: “Não há possibilidade. O Governo anterior já assinou, tá decidido, vai ser assim”. E Varou replica: “Mas a gente acabou de ser eleito com um outro projeto que o povo grego quer: E o alemão: “Olha, por mim, não teria nem havido eleição”, mas já que vocês quiseram ter eleições, fizeram, mudaram o governo. Mas os nossos termos continuam os mesmos e, não vão mudar por causa disso. Essa conversa histórica ocorreu com Varoufakis, no Eurogroup, ante a sua impertinência em tentar renegociar os termos do endividamento de seu país. Afirma que a austeridade imposta à Grécia não foi uma solução econômica, mas, uma ferramenta de punição política.  Gosto muito de um Livro dele “O MINOTAURO GLOBAL” em que faz uma analogia entre o Sistema Financeiro americano como essa figura mítica grega. Foi uma sacada de mestre, quando ele mostra a submissão do mundo ao Minotauro ou a Besta Fera que se tornou o sistema financeiro.

Outro grego incrível é Costa Gravas um cineasta com filmes de tirar o chapéu com destaque para uma obra prima como “ÉTAT DE SIÈGE” ou Estado de Sítio onde menciona inclusive a ditadura brasileira, mostrando as práticas de tortura que as pessoas sofriam numa fase em que a própria população desconhecia essa prática abominável. Costa Gravas diz que todas as formas de poder são subalternas ao poder financeiro. É importante também evidenciar quem são os verdadeiros beneficiários dos orçamentos do Governo ou seja a sangria que são os juros e as amortizações das Dívidas. No trailer de um outro filme o “Imperialismo”, há uma reunião de acionistas de um Banco poderoso e um jovem eleito para dirigir a corporação diz que o objetivo dele era tirar dinheiro dos pobres cada vez mais para enriquecer os ricos cada vez mais. E todos aplaudem!

Maria José Farinãs – Professora da Universidade de Madri de Filosofia do Direito enfatiza com todas as letras, que: “Não vivemos uma crise econômica.” Não é uma crise financeira, tratada como uma questão técnica. Não vamos nos recuperar. É falso. O que estamos assistindo é a implementação da ideologia da austeridade. Uma ideologia que pretende desmantelar políticas sociais, suprimir controles e direitos, desregular o trabalho. O domínio do poder financeiro sobre o poder político significa, na prática, para as classes populares, trabalhadoras, e também para as classes médias, que começam a se dar conta, por meio de seu empobrecimento brutal, um enorme sofrimento social. E um retrocesso ideológico onde germinam posições neoconservadoras.

Boaventura de Sousa Santos, professor de Sociologia da Universidade de Coimbra, Portugal, lembra que a lógica do capital financeiro pode ser homicida, quando um jovem qualquer, de qualquer lugar do mundo, quem sabe uma pessoa simpática, que inclusive pratica uma vida solidária, senta-se diante do seu computador e de uma hora para outra se transforma num assassino, podendo levar um país à bancarrota. “Foi o que aconteceu com a Grécia”, diz ele no filme.

David Harvey-Um inglês de Cambridge – geógrafo – autor do “O ENIGMA DO CAPITAL” – cuja presença no Brasil é constante também faz parte do elenco. Já esteve no Rio fazendo palestras no IFICS o Instituto de Filosofia da Universidade do Rio.

Sobre o time brasileiro vamos começar pelo economista Paulo Nogueira Batista Júnior. Foi presidente do Banco de Desenvolvimento dos Brics, na época em que o bloco era formado por Brasil, Rússia, Índia e China, Diz que a crescente influência das finanças na economia, é que levou os teóricos a cunharem o termo financeirização, um verdadeiro processo de irresponsabilidade: “As pessoas movimentam enormes fundos de um país para outro, sem transparência e sem consciência sobre se aquilo tem alguma utilidade social. Teoricamente, o sistema financeiro deve servir ao propósito meritório de transferir recursos de setores superavitários para setores deficitários que querem investir. Mas esse é o livro-texto. Na realidade, o atravessador domina. Em vez de ser o intermediário, ele passa ser o objetivo em si. O meio vira o fim”.

Outro economista Ladislau Dowbor da PUC de São Paulo, perito em finanças solidárias vem nos mostrar que a escravidão pode ter seus dias contados: “Esqueça tudo o que você um dia aprendeu sobre o funcionamento das coisas. Esqueça o chão da fábrica, o gerente, o contracheque, o sindicato, a lei da oferta e da procura. Na ordem financeira global, o que faz a roda girar são papéis”. “Você pode mover imensos papéis e não vai ter um par de sapatos a mais no país”. Essas são as teses hegemônicas do “rentismo”, a ciranda que produz dinheiro sem o suor do trabalho.

Temos ainda Guilherme de Mello, Doutor em Economia pela UNICAMP e especialista em macroeconomia, política fiscal e desenvolvimento. Segue a tradição Keynesiana ou seja do Estado de Bem-Estar Social e critica veementemente a ideia de que o mercado seja capaz de promover o crescimento com inclusão social. Atualmente é Secretário de Política Econômica no Ministério da Fazenda.

Laura Carvalho economista da USP – Uma das vozes mais influentes no debate sobre desenvolvimento econômico com justiça social. Defende uma agenda de crescimento sustentável que seja liderado pelo Estado.

Rachel Ronik – Urbanista e Professora tem sido uma voz potente na luta por cidades mais justas e humanizadas.

João Pedro Stédile – Economista, cofundador do MST. Dedica sua vida à luta por reforma agrária, mobilizando ocupações de terras improdutivas, promovendo agroecologia, assentamentos com educação, saúde e produção autossustentável, além da construção de milhares de cooperativas.

Guilherme Boulos- Iniciou seu ativismo em 2002 quando entra para o MST. Em 2018 já na política, foi candidato à Presidência da República e em 2020 à Prefeito de São Paulo. Em 2022 foi eleito Deputado Federal mais votado no Estado. No cargo tem defendido pautas coerentes com seu perfil de defensor incondicional da justiça social, moradia, saúde e tributação progressiva.

Luís Nassif jornalista -Em 1970 quando começa o seu trabalho de jornalista na Revista Veja, depois vai para a Folha como colunista e participante do conselho editorial. Ganhou o prêmio Esso de Jornalismo em 86 por sua série de artigos sobre o Plano Real. Em 2013 lança o Jornal GGN, um portal próprio com foco em economia, política e cidadania. Seu trabalho é pautado por uma atuação colaborativa e de forma independente buscando romper com a polarização tradicional entre esquerda e direita.

Economista e empresário, Keith Cattley é aquele amigo com quem Silvio Tendler tem longas discussões sobre a conjuntura econômica e política do Brasil Numa dessas conversas, Cattley resumiu seu entendimento que agora está no filme: “Se você detém o poder econômico, todas as outras formas de poder são subalternas a ele. O orçamento do governo revela que seus principais beneficiários são os juros e as amortizações da dívida interna, um dinheiro que vai para os bancos, as seguradoras, os fundos de investimento e a elite que gravita neste universo.

No Brasil, os donos do poder, de que fala Cattley, se fazem representar por uma dívida interna de alguns trilhões e ficam com quase a metade, 47%, de tudo que se arrecada em impostos. No Primeiro Mundo, diz o empresário, 4% a 5% do que é arrecada é gasto com juros. Países como México, mais próximos de nós, comprometem até 9% da receita com pagamento de juros, mas ninguém paga mais que 15% do que arrecada, salvo pontualmente, em casos de guerra. “Se o mundo inteiro paga, em média, 7%, 8%, nós não podemos pagar 47% do que arrecadamos em troca de nada”, observa.

Niterói, 21 de julho de 2025.

Helena Reis