O que é o “efeito Mamdani”?
Zohran Mamdani não surge do nada, nem é um mero acidente eleitoral pelo contrário, sua liderança é o resultado de uma trajetória cultural, política e geracional que conecta diáspora, cidade e crise do velho poder urbano. Nascido em Uganda, Mamdani carrega a marca de uma história atravessada pelo colonialismo britânico, pelas migrações forçadas e pela experiência do deslocamento. Ainda jovem, sua vida passa a ser moldada por essa condição conhecida como diáspora onde se vive entre vários mundos, com diferentes línguas, referências culturais, e dificuldades cotidianas para sobreviver. Essa vivência numa realidade nada abstrata, mas concreta e dura, forma um olhar político que não separa identidade, economia e território.
Em Nova York, ele se constrói politicamente fora dos círculos tradicionais de poder. Não vem do mercado financeiro, nem das elites partidárias clássicas. Sua formação se dá no contato direto com comunidades de imigrantes, trabalhadores precarizados, jovens racialmente discriminados e populações sistematicamente excluídas das decisões centrais da cidade. É nesse chão urbano que Zohran aprende a traduzir indignação em organização.
Culturalmente, sua trajetória dialoga com uma nova fala política que é anticolonial, plural, atenta às injustiças raciais, religiosas e econômicas. Seu discurso conecta pertencimento e política pública, evidenciando que a exclusão não é apenas simbólica, mas também material, urbana, econômica.
Politicamente, Zohran cresce ao ocupar um vazio: o da crise de representação nas grandes metrópoles globais. Enquanto as elites urbanas repetem fórmulas neoliberais, ele constrói uma liderança que fala dos problemas quotidianos como moradia, custo de vida, trabalho e dignidade numa linguagem acessível ao cidadão comum. Não promete abstrações; fala de sobrevivência urbana real. Sua ascensão se dá porque ele transforma experiência coletiva em projeto político. Não se apresenta como exceção, e sim como expressão de uma base social que aparentemente havia perdido seu lugar por deixar de ser representada. Ao vencer, não rompe apenas uma barreira identitária, rompe a crença quase religiosa de que o poder municipal tem dono, ou seja, pertence a uma mesma categoria de pessoas, vinda da mesma classe social, com o mesmo status e mentalidade. A liderança de Mamdani nasce, portanto, da convergência entre trajetória pessoal, maturação cultural e oportunidade histórica. Ele não inventa ou fomenta o descontentamento: ele organiza, nomeia e institucionaliza. Por isso sua vitória não é apenas local. Ela sinaliza e nos dá grandes dicas de que a vida é movimento, é mudança, é coragem e até o centro do poder pode ser reconfigurado.
Niterói, 10 de janeiro de 2026.
Helena Reis
