O Programa Falou e Disse recebe Denilson Oliveira.
Denílson Araújo de Oliveira fez graduação, mestrado e doutorado na UFF como geógrafo. Hoje é Professor Associado do Departamento de Geografia Humana da UERJ no Campus Maracanã. Uma de suas especialidades é o aprofundamento do pensamento afropolítico e geográfico da África e a sua diáspora como continente fornecedor de força de trabalho escravizado adquirida em lutas intestinas direcionada principalmente para a América Latina. De sua autoria o livro: “Geografias Negras do Genocídio Negro Brasileiro”.
Uma influência marcante na sua formação profissional é o geógrafo brasileiro MILTON SANTOS cujo centenário de nascimento foi comemorado na semana passada no dia 03 de maio. E é sobre esse personagem que exerceu tanta influência na formação do pensamento brasileiro que busca em suas raízes, as bases sólidas de um conhecimento cujos alicerces advém não só da cultura local de seus povos primitivos como também da vinda de povos africanos que o acaso nos trouxe através da ambição do colonizador. Quis o destino que desse amálgama aprendêssemos muitas lições e entre elas os objetivos espúrios mantidos desde o início da submissão dos povos principalmente dos dois Continentes África e América Latina. Essa dominação perdurou por séculos, até os dias atuais e vem encontrando sempre, novas formas de domínio. Um deles já usado na antiguidade pelos comerciantes de escravos ao coptar lideranças tribais facilitando a captura de negros como reféns. Hoje, objetivos similares são muito mais escamoteados. Suas feições e maneiras de domínio se traduzem através da aliança com as lideranças políticas e econômicas do país, de forma velada ou diplomática. Simples negociações. Assim surgiu o chamado neocolonialismo, apenas uma farsa, isto é, com novos instrumentos de domínio, novas formas engendradas de cooptação, ou seja, manipulada de maneira mais sutil, aparentemente menos arbitrária, mas, tão letal e desagregadora como antes.
Milton Santos já era uma figura proeminente quando veio a ditadura no Brasil. Como muitos, teve de abandonar o país e dessa forma, entrou em contato com a África profunda. Para um pensador o exílio se transforma em experiência e promoção de conhecimento não livresco, mas com uma forma direta perpassando a vida real. O Centro mais importante dessa experiência foi a Tanzânia na época governada pelo Presidente JULIUS NYERERE. Foi ali que amadureceu sua visão crítica sobre o colonial e a sua dependência aos países hegemônicos. Nyerere defendia a independência econômica do país, a valorização nacional e a integração do continente. Milton pode assistir diretamente o nascimento de países recém libertos do colonialismo. A África exerceu um impacto sobre a sua visão de mundo, mostrou a ele algo decisivo: que o subdesenvolvimento não era falta de capacidade e sim o resultado histórico da colonização e da dependência internacional. Isso mudou profundamente sua leitura do mundo. Percebeu que os países periféricos eram inseridos no sistema global de forma subordinadas; que a tecnologia era controlada pelos centros de poder e que as cidades periféricas cresciam de maneira desigual excludentes. Essa experiência serviu de base para suas futuras obras sobre globalização, território e dependência. O seu período africano foi marcado profundamente pela descolonização, pelo pan-africanismo, o socialismo africano e a construção de Estados soberanos. Conviveu com o clima político gerado por líderes como Kwame Nkrumah, Patrício Lumumba, Ahmed Bem Bella. Nwame Nkrumah foi uma das maiores lideranças do pan-africanismo e da luta anticolonial do século passado e o grande líder da independência de Gana que em 1957 foi o primeiro país da África Subsaariana a conquistar a independência do domínio europeu no pós-guerra. Nkrumah era defensor da unidade africana e da soberania econômica incluindo a industrialização. Para ele a independência política só seria legítima atrelada à independência econômica sem o que haveria apenas uma ilusão ou ledo engano. Enfim, significava o fim do neocolonialismo com países formalmente independentes, mas, economicamente controlado por potências estrangeiras e muitinacionais. Seu ideal não logrou êxito pois foi derrubado por um golpe militar em 1966 durante uma viagem internacional. Patríce Lumumba tornou-se líder mundial da luta contra o colonialismo. Foi o primeiro-ministro da República Democrática do Congo. Ele denunciava o saque colonial, o racismo europeu e a exploração avassaladora das riquezas africanas. Ficou famoso o discurso que pronunciou na independência do Congo pois foi direta na veia jugular das potências ocidentais dizendo sem travas na língua sobre as humilhações sofridas, os massacres, e a violência colonial belga. O Congo era ambicionado pelas suas imensas riquezas como urânio, cobre, ouro, diamantes, cobalto e Lumumba defendia veementemente o controle nacional dos seus recursos e a soberania econômica. Claro que isso assustou tanto a Bélgica, como os EUA, as empresas mineradoras e os setores da guerra fria. Assim em 1961 foi preso, torturado e assassinado. Extensa documentação histórica atestam a participação externa em sua eliminação. Ahmed Ben Bella foi uma das principais lideranças da independência da Argélia através da Frente de Libertação Nacional contra o domínio francês. Essa guerra foi uma das mais violentas do século XX com torturas, massacres, repressão militar, terrorismo colonial e centenas de milhares de mortos. Após a independência em 1962 Bem Bella tentou construir a soberania nacional através da industrialização, reforma agrária e a aproximação com os países do 3º Mundo. Ele defendia o socialismo árabe, o anti-imperialismo e a unidade africana. A Argélia tornou-se símbolo internacional de descolonização, mas como os outros acabou sendo derrubado por um golpe militar em 1965, apesar de continuar a ser referência histórica do nacionalismo árabe-africano.
Nkrumah, Lumumba e Bem Bella tem um fio condutor que os une. Os 3 lutaram contra o colonialismo europeu e defenderam a soberania econômica e o controle dos recursos nacionais, minerais por excelência. Eles imaginavam ser possível a união dos povos do Sul e enfrentaram enormes pressões externas. Essa visão influenciou até o âmago intelectuais como Milton Santos, Samir Amin e Frantz Fanon.
Milton Santos e Samir Amin tem muitas afinidades entre si entre elas o fato de transitar em mais de um continente e de forma a absorver tanto a erudição e o conhecimento europeu como mergulhar na profundidade do continente africano ou latino-americano e ir às raízes do colonialismo e da sua exploração.
Voltando a Milton Santos quando sai da África e vai para a França onde lecionou, pesquisou, escreveu, participou de redes internacionais de geografia e aprofundou sua formação teórica e consolidou seu rigor metodológico dando dimensão internacional a sua obra. Assim, dialogou com grandes correntes críticas da geografia e das ciências sociais e também teve contato intenso com o planejamento urbano, com a economia regional e a geografia humana. A França foi decisiva para que Santos saísse de uma visão mais calcada no nacional e estendesse com grandes lupas o sistema mundial. Na Europa ele percebeu com maior nitidez o poder das grandes corporações, a centralidade tecnológica do Norte e o funcionamento global do capitalismo. Seu trabalho e influência se estendeu para outros países fora da França e quanto mais suas relações e conhecimentos fluíam e, ampliava enormemente sua visão do mundo, mas, sua capacidade crítica era exercida como por exemplo a tendência europeia em olhar o território de forma apenas técnica, sem compreender plenamente o colonialismo, as desigualdades globais, a dependência e a exclusão periférica como se tivessem os olhos vendados talvez por conveniência. Todo esse aprendizado aqui resumido foi fundamental para as suas futuras análises sobre globalização, técnica, território e soberania. Quando retorna ao Brasil já não era apenas um geografo brasileiro, mas, um intelectual mundial com experiência ilimitada e abrangente a vários continentes.
Niterói, 09 de maio de 2026.
Helena Reis
