O Programa Falou e Disse reprisa a entrevista com Elias Jabbour.
Geógrafo com mestrado e doutorado pela USP, economista, professor da UERJ na área de Ciências Econômicas, é reconhecido como um dos principais especialistas no desenvolvimento econômico da China Contemporânea. Analisa a China como uma economia que superou as formas tradicionais do capitalismo e também da visão marxista e que usa o Mercado como instrumento e não como sistema dominante. Daí a expressão que utiliza como “Socialismo de Mercado”. Portanto a China do seu ponto de vista, não é apenas uma economia de mercado e sim uma economia planejada e que usa o mercado para o seu crescimento. Na nossa entrevista tanto eu quanto Léon Ayres fizemos inúmeras perguntas tentando elucidar algumas características desse sistema milenar. No século XIX, a Inglaterra que começou a concorrer comercialmente com várias Nações em todo o Planeta ao começar a ter dificuldades comerciais com a China que vendia produtos como chá, seda, papel, porcelana, e queria receber o pagamento em prata sem a compra bilateral de produtos ingleses. Essa falta de venda recíproca produto X produtos, ensejou por parte da Inglaterra estudar formas de enfraquecer o país rival. A solução foi começar a organizar um contrabando em larga escala do ópio que estava produzindo na Índia. Assim, começou a vender ilegalmente uma grande quantidade de ópio e receber o pagamento em prata. Em pouco tempo conseguiram produzir milhões de viciados gerando problemas sociais e econômicos pela saída através do pagamento, de grande quantidade de prata. O Governo tentou proibir a venda da droga e, quando confiscou e destruiu o carregamento de ópio britânico´, a Inglaterra respondeu com a guerra (1839/1842) na qual a China saiu derrotada uma vez que a Inglaterra tinha navios a vapor, marinha poderosa, artilharia moderna ao contrário da China. Sendo subjugada teve de assinar o tratado de Nanquim o qual abriu seus portos ao comércio estrangeiro, deu privilégios legais a estrangeiros além de ceder Hong Kong aos ingleses. Isso se chama perda de Soberania e, daí, logo a seguir outros países sem ter nem porque, impuseram acordos unilaterais entre eles a França, Estados Unidos, Rússia, Japão, Alemanha. Todos exigindo mundos e fundos como portos, territórios, mineração, etc. e, como se não bastasse uma década e meia depois iniciaram a 2a Guerra do Ópio 1856-1860 em que a China sofreu todo tipo de retaliação, fragmentação do Estado, e todas as formas possíveis de humilhação por parte de Nações hegemônicas querendo seu quinhão no botim de guerra. Os chineses denominam esse período de 90 anos do “Século da Humilhação”. Nada mais real e pertinente. E o povo se perdeu na miséria, na fome, no vício do ópio de uma forma pouco vista até então no planeta. O comércio do ópio foi provavelmente o maior caso de narcotráfico organizado por um Estado na história da nossa civilização. O reverso da medalha só começa após a revolução socialista com Mao-Tsé Tung mas, esse período explica muita coisa da política atual chinesa como a defesa da soberania, a questão de Taiwan, o nacionalismo, o investimento em prol do estado chinês etc. No século XXI, navios chineses cruzam o mundo levando mercadorias, tecnologia e investimento. Em pouco mais de uma geração, a China tirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza. Essa é a maior transformação social da humanidade. A história da China é a prova de que desenvolvimento não é milagre e sim projeto nacional. Essa é uma síntese da dinâmica da nossa entrevista acrescida de outras informações importantes: Uma pessoa que estuda a China há mais de 25 anos seria capaz de conhecer minimamente uma civilização que existe há mais de 2000 anos A.C. e com continuidade e que não foi construída com uma única religião ou doutrina ao contrário. Daí podemos citar o Confucionismo, o Taoismo (Daoismo), o Budismo. Há inclusive um ditado famoso na China que diz: “Chinês é confucionista no governo, taoista na vida e budista na morte”. O significado disse nos demonstra que o Confucionismo é voltado essencialmente para a organização social e política, o modo como se comporta a sociedade, o relaciona mento dos cidadãos entre si e com as instituições de Estado, enquanto o Taoismo se refere à vida quotidiana, à sua intimidade e o seu modo de pensar e existir e o Budismo às questões da espiritualidade incluindo a morte inexorável e o culto aos antepassados. Então essa China com tantas invenções como a “Bússola”, o “Papel” tão importante para o incremento das viagens marítimas e da Imprensa e edição de livros, pode ser desvendada por um brasileiro? De passagem podemos citar algumas características da China como seus dois grandes Rios o Yang Tsé Kiang e o Rio Hung He ou Rio Amarelo. Importante, entretanto é entender um pouco sobre a organização política da China e isso Jabbour sabe tudo de cor e salteado ou na palma da mão como se diz no vulgo. O Parlamento chinês é chamado de Congresso Nacional do Povo e funciona no Grande Salão do Povo em Pequim ou Benjing em chinês. É o maior Parlamento do mundo com cerca de 3 000 deputados e só se reúne uma vez por ano. E para fazer o que? Aprovar uma série de questões desde o orçamento, passando pelas novas Leis, e os Planos Quinquenais. E Eleger quem? O Presidente, o Primeiro Ministro, a Comissão Militar e as grandes decisões nacionais. Na realidade, não é um lugar de disputa partidária como no Brasil, mas, um Órgão de deliberação e aprovação do planejamento nacional. Outro aspecto interessante que Jabbour aponta são os vários níveis do Congresso. Curiosamente, a China tem um sistema de Congressos Populares em vários níveis de forma piramidal, o Nacional já mencionado e nas Províncias, Prefeituras dos grandes Centros, Distritos, Municípios, Vilas, Aldeias e Bairros como se fosse um sistema em camadas. Cada Congresso elege o do nível acima até chegar ao Congresso Nacional e, nos níveis mais baixos, o povo vota diretamente. Outro destaque interessante do Sistema chinês são os Comitês de Bairro ou Comitês de Residentes com uma variedade de funções que chegam a treze entre elas vários tipos de ajuda entre os moradores ao nível da saúde, do emprego, da solidariedade etária, campanhas múltiplas sobre variados problemas como vacinação, além da comunicação com o Governo. Ou seja, a população cumpre um papel de partícipe da administração local e até nacional. Portanto, o fato da China atrair Empresas internacionais para o seu território, só tem contribuído para o seu desenvolvimento uma vez que as mesmas, devem seguir as regras chinesas, entre elas a de transferência de tecnologia. Não é à toa que a China em poucos anos teve um salto absurdo nesta área. Desde 1978 no Governo de Xiaoping quando abriu sua economia foi sob condições como por exemplo treinar engenheiros chineses, formar fornecedores locais, fazer parcerias com empresas chinesas com transferência de tecnologia, não permitir que estivessem livres e soltos em setores estratégicos e submetê-las ao planejamento estatal. Assim, durante anos para entrar na China, empresas estrangeiras tinham de fazer “joint venture” com empresa chinesa em múltiplos setores carros, trens, petroquímica, energia, aviação, telecomunicação, eletrônicos etc. Em poucos anos os engenheiros chineses estavam aptos a criar não só sua própria empresa como superar os conhecimentos adquiridos. A transferência tecnológica foi uma ferramenta dentro de um grande projeto nacional. O Ocidente levou fábricas para a China para ganhar dinheiro. A China usou essas fábricas para aprender a absorver tecnologia e mudar sua história. Em resumo, ela não se industrializou por livre mercado, se industrializou por estratégia nacional de aprendizado tecnológico. A escritora Simone de Beauvoir mulher de do Filósofo Jean Paul Sartre escreveu um Livro sobre a Revolução chinesa chamado ” A Grande Marcha”. Talvez ela mesma, na época, não tivesse plena noção de como os chineses tem uma bússola no intelecto que os orientam a mudar de rota e itinerário todo tempo, em busca das melhores condições de navegabilidade. Enfrentar a agressividade do capitalismo global só pode dar certo se soubermos enfrentar ou procurar saídas às tempestades e mares revoltos. Não foi por acaso que os chineses criaram a “rota da seda” que buscando o sentido figurado é aquele caminho ideal, da paz celestial. Voltando à história podemos dizer que ela surgiu por volta do século II A.C. durante a dinastia Han e constituía uma rede de rotas tanto terrestre quanto marítimas ligando países e continentes China, Ásia Central, Índia, Pérsia, Oriente Médio, Europa. Foi mais do que uma ponte de integração entre as civilizações não só pela troca de mercadoria seda, papel, chá, vidros, porcelana, cavalos e vamos frisar as ideias, tecnologias além de crenças e culturas que funcionaram por 1.500 anos. E hoje são ainda os chineses que não abandonando seu conhecimento milenar, empreendem um novo circuito chamado a Moderna Rota da Seda lançada em 2013 por Xi Jinping. Esse projeto gigantesco envolve ferrovias, rodovias, gasodutos, oleodutos, cabos de internet, energia, cidades logísticas e corredores comerciais. Seus múltiplos objetivos incluem os econômicos e geopolíticos como reduzir rotas marítimas controladas pelos EEUU e garantir o acesso a energia e matérias primas. Estudos recentes apontam essa nova rota como como um projeto de reorganização econômica do mundo pelo seu amplo alcance capaz de redesenhar o mundo moderno. Hoje, quando estamos assistindo as polêmicas em torno do uso do Estreito de Ormuz que é apenas um pequeno corredor marítimo entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, mas, responsável pela passagem de 20% do petróleo mundial podemos concluir sobre a importância estratégica da Rota da Seda. Para finalizar vamos mostrar o avanço em números do progresso da China no século XXI.O Banco Mundial afirma que a China tirou perto de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema em cerca de 40 anos. Ao verificarmos o PIB (Produto Interno Bruto) o do chinês em 2024 chegou a US$18,74 trilhões, com crescimento de 5,0% no ano. Comparando com o Brasil no mesmo ano ficou em cerca de US$2,19 trilhões, ou seja, 8 vezes menor. A renda disponível per capita urbana passou de cerca de 9.371 yuans em 2000 para 124.110 yuans em 2024nas unidades urbanas não privadas. Mesmo descontando inflação e diferenças metodológicas ao longo do tempo a ordem de grandeza é imensa. Em relação a formação de quadros e ciência: em 2000 a China tinha 5,56 milhões de estudantes em graduação em Universidades gerais e 301 mil pós-graduandos matriculados. Em 2024 esse número dobrou para 10,594 e 1,084 já graduados na pós. A expectativa de vida na China chegou a 73 anos em 2023 igualando os EUA. Na capacidade instalada de atendimento médico passou de 4,44 milhões de trabalhadores de saúde para 12,47milhões de profissionais técnicos em saúde. Em relação a habitação até o fim de 2023, a área habitacional per capita dos residentes urbanos era de 40 m2 e a taxa de urbanização a 66,16% com mais de 930 milhões de pessoas vivendo em áreas urbanas. O Saneamento, água e infraestrutura básica mostra a China com 100% de acesso a eletricidade em 2023 e, 97,65% da população usando serviços básicos de água potável. Outros dados não mencionados, mas, que podem ser objetos de pesquisa demonstram que o desenvolvimento chinês no presente século é estatisticamente incontornável. Ele aparece em pobreza, renda, formação de quadros, saúde, leitos, urbanização, transporte, água, saneamento e capacidade científica.
Niterói, 28 de março de 2026.
Helena Reis
