O Programa Falou e Disse recebe Helena Piragibe e Rosangela Rocha.

Rosângela Rocha – Presidente da UBM Carioca, recém-eleita neste sábado dia 23 de maio. É comerciária e dirigente sindical e diretora das Mulheres Trabalhadoras do Sindicato do Comércio do Rio de Janeiro e também coordenadora do Coletivo Margaridas e militante do Pc do B.

Helena Piragibe – Eleita pela Sociedade Civil para ocupar a função de Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher em vigência desde 1987. Advogada e professora aposentada atua há mais de 20 anos na UBM Carioca.

Apesar da tônica atual seja chamar atenção para a vulnerabilidade da mulher que tem sido vítima da violência dos seus próprios parceiros que na sanha em dominá-las acabam exterminando suas vidas, nosso tema de hoje é falar sobre os movimentos femininos. Preferimos abordar suas lutas, suas conquistas e coragem e como conseguem vencer pouco a pouco os preconceitos e ultrapassar àquele lugar que durante séculos lhes tinha sido destinado, qual seja, vivenciar alguns papéis subalternos e se submeter a eles com competência e alegria como se fosse o melhor dos mundos. Antes de mais nada, prefiro um diálogo inicial entre nós mesmas. E por quê? Nossa luta se refere a ultrapassagem do nosso próprio DNA na medida em que para sobreviver incorporamos muitas práticas pouco autênticas e vivemos os papéis teatrais que os homens nos reservaram onde, a ideia de fragilidade estava presente não de forma pejorativa, mas, acoplada à noção de glamour, beleza e sensibilidade. Então, sem nenhuma reflexão, o tempo todo queremos nos sentirmos belas, sensuais, apetitosas aos desejos do macho. Essa maneira de agir acaba nos identificando com aquilo que não queremos ser e, inconscientemente não conseguimos deixar de ser. Esse é o primeiro paradoxo cujas consequências já conhecemos sobejamente. Mas, outra prática também perigosa do ser mulher que nos foi legado sempre sugeriu que cultivássemos a habilidade do jeitinho, da doçura, de fugir do confronto. E daí, qual o problema? Essa subjetividade pouco autêntica, nos coloca muitas vezes num papel onde a dubiedade passa a ser um lugar comum e, tudo isso somado acaba não produzindo bons resultados, haja visto nessa questão do feminicídio cujos números vem aumentando cada vez mais à medida que as mulheres vêm se emancipando. Ou seja, quanto mais mulheres se libertam, outras mais que ficaram para trás, passam a correr riscos maiores e, são cada vez mais ameaçadas. Então o que teremos de fazer além de continuar a denunciar, é claro. Tentar reinterpretar para as mulheres ainda sem noção, qual é o seu novo papel nos dias de hoje. Quero deixar registrado que na sociedade atual existem mulheres diversas, mas, me chama atenção basicamente, dois tipos antagônicos: as que conseguiram romper os grilhões da submissão milenar e outras, que continuam a cumprir o papel de “gueixa” moderna. Entretanto, essa reflexão não mostra esses dois campos tão claramente. Existem aspectos muito sutis e escamoteados em ambos os lados. Vamos dar um exemplo. Uma mulher, conseguiu através do estudo e da competência se tornar independente e passa a ter uma vida ativa e confortável. Entretanto sua beleza não é aquela citada nos manuais de sedução. Então apesar das múltiplas capacidades, fica apreensiva e deslocada pelos homens serem indiferentes aos seus valores como pessoa. Daí, resolve apostar na ideia de criar uma imagem, que se aproxime do ideal masculino dos dias de hoje. E por isso, se reconstrói indo em duas direções: física – moldando o seu corpo em academias, não de forma moderada, mas se transformando em modelo métrico como barriga tanquinho e muitos etcs. e medicinal – fazendo preenchimentos faciais como boca e corporais como nádegas, que devem ser agora volumosas, não previstas na sua anatomia, mas, que respondam ao atual modelo desejável. E aí começam a surgir inúmeras outras contradições da vida moderna cuja alimentação pouco saudável vem provocando um aumento drástico de peso, um sério problema ligado à saúde e que descarta muito mais as mulheres do que os homens vítimas do excesso de peso. Concluindo, acho que o movimento em defesa das mulheres não pode partir das consequências dos nossos problemas esquecendo de ir às suas causas muito mais profundas. Sobre o aspecto da genética milenar volto a um contexto moderno, mas, que se mescla a essa reflexão: falo da questão da prostituição considerando- a em seus vários formatos. Uma delas, não como uma profissão homologada, mas outras formas escamoteadas, não só na escolha de parceiros cuja situação financeira vai lhe dar uma vida vantajosa, mas, aqueles contatos esporádicos para se manter em empregos ou conseguir cargos de alta remuneração.

Isso posto, voltamos ao tema da importância das mulheres na Sociedade Brasileira de hoje e, como podemos medir a evolução delas na nossa atual sociedade, elas têm peso? Tem voz? Tem reconhecimento? Tem segurança? Tem autoestima? O voto foi uma das primeiras conquistas políticas das mulheres. Quais seriam hoje os novos indicadores da emancipação feminina? O voto mesmo tendo sido importante, só mostra uma participação política formal não necessariamente emancipatório. Mas, com o voto as mulheres puderam entrar nos partidos políticos e serem candidatas à cargo apesar desse processo ter sido muito lento e, mesmo hoje, a proporção de candidatas femininas, está longe de se comparar a dos homens. A 2ª conquista importante foi através da Educação. Ter acesso à Escola primária, secundária e mais tarde à Universidade e, nesse século XXI aos mestrados e doutorados da vida deu um novo impulso e novas prerrogativas às mulheres mesmo que inicialmente houvesse uma certa dificuldade em se imiscuir em carreiras de domínio masculino como Engenharia, Biologia, Economia, Direito etc. O conhecimento se confundia com o papel tradicional de cuidar dos outros fossem filhos, doentes ou idosos. Então o papel de professora, assistente social, enfermeira etc tinha a marca da reserva preferencial das minas até pela recusa dos homens. A 3ª conquista foi a entrada no mercado de trabalho não só através dos setores em que havia se preparado como em outros. As portas se abriram quase que simultaneamente em várias áreas incluindo não só àquelas dos estudos mais graduados como as do nível médio necessário a muitos setores da indústria e comércio. E agora chegou a hora de frisar a grande incongruência ou aberração pode-se dizer na relação salarial. Para uma mesma função e jornada de trabalho as mulheres têm um ganho diferencial que se traduz em muito menor salário do que o dos homens. Essa disparidade atravessa décadas e décadas e, só recentemente está sendo discutida. Uma outra questão relacionada às perdas refere-se a maternidade. Só depois da Constituição de 88 se adotou uma blindagem às mulheres garantindo a gestante 120 dias de licença a maternidade sem perda de salário e do emprego. Em 2008 com o programa Empresa Cidadã, a licença foi ampliada para 180 dias. A Constituição de 88 foi considerada um divisor de águas pois antes a licença não era acompanhada de uma blindagem constitucional do emprego de modo que mulheres grávidas eram simplesmente dispensadas do emprego, logo após serem informados do seu estado. A 4ª questão com a ida da mulher para o mercado de trabalho foram as atribuições múltiplas que passou a assumir. Uma delas conhecida como Jornada dupla ou tripla em sua carga horária incluindo cuidado com os filhos, cuidado com a casa e neste item significa muitas vezes não só limpeza, mas, o preparo alimentar da família incluindo até o abastecimento dos gêneros. Tudo isto significa preocupação e tempo insuficiente e que a mulher segundo a gíria, “tenta se virar nos 30”.

A 5ª questão que coloco é a presença da mulher em cargos e posições de mando. Por mais competência que tenha, galgar situação de poder seja na política através de eleições ou indicações podemos contar nos dedos. Na política, muitos partidos para cumprir cota mínima de candidata do sexo feminino, declaram nomes que servem apenas como embustes partidário para recebimento de cota. É só conferirmos quantas mulheres atualmente tem relevo em cargos políticos, executivos ou na magistratura vamos constatar como o número é ínfimo. O tema é vasto por isso voltaremos em breve a discutir novas vertentes do mesmo problema.

 

Niterói, 24 de maio de 2026.

Helena Reis